Watchmen existe em três encarnações: a HQ revolucionária de Alan Moore e Dave Gibbons (1986-87), o filme de Zack Snyder (2009) e a série da HBO comandada por Damon Lindelof (2019). Cada uma carrega bastidores absurdos: do troféu Hugo virando alimentador de pássaros à briga de Alan Moore com cada adaptação. A seguir, 25 curiosidades sobre a franquia mais ambiciosa dos quadrinhos.
O que ninguém te contou sobre Watchmen
Quatro décadas depois da estreia da HQ, ainda surgem detalhes que escapavam até dos fãs mais aficionados. Vai de Terry Gilliam chamando o projeto de infilmável a Tom Cruise fazendo lobby ativo pelo papel de Ozymandias. Em paralelo, a série da HBO conquistou 11 Emmys em 2020 cobrindo o Massacre de Tulsa de 1921 — evento histórico real esquecido por décadas. As 25 curiosidades a seguir cobrem as três obras e mostram por que cada uma delas reabre o debate sobre o que pode virar quadrinho adulto, filme blockbuster ou minissérie premiada.
1. Watchmen começou com heróis de outra editora e quase não existiu
A premissa que viraria Watchmen nasceu de uma proposta de Alan Moore usando personagens da Charlton Comics, comprados pela DC em 1983. O editor Dick Giordano vetou: a história deixaria os heróis inutilizáveis depois. Moore então criou Rorschach, Dr. Manhattan, Coruja, Ozymandias e Espectral do zero, espelhando os arquétipos originais. Sem o veto, a obra mais influente dos quadrinhos teria sido só mais uma reciclagem de personagens da DC.
2. Alan Moore transformou o Hugo Award em alimentador de pássaros
Watchmen ganhou o Hugo Award de 1988 na categoria Other Forms — até hoje, o único quadrinho a vencer o prêmio máximo da ficção científica. Dave Gibbons contou que Alan Moore plantou o troféu de cabeça para baixo no jardim e passou a usá-lo como mesinha para alimentar passarinhos. O gesto resume a relação de Moore com prêmios e com a indústria que ele acabou abandonando. Resta saber se os pássaros sabiam do peso histórico do objeto.
3. A Time botou Watchmen na lista dos 100 melhores romances do século
Em 2005, a Time incluiu Watchmen na lista dos 100 melhores romances em inglês de 1923 em diante. A revista cravou: “feito superlativo de imaginação, combinando ficção científica, sátira política e ousadas releituras dos formatos gráficos atuais. Nenhum outro quadrinho entrou na seleção. Somado ao Hugo de 1988, isso faz da obra de Moore e Gibbons a HQ mais reconhecida fora do circuito dos quadrinhos.
4. O smiley ensanguentado nasceu como rabisco rápido na mesa
O ícone mais famoso da obra não foi planejado. Dave Gibbons contou ao AV Club que desenhou o broche amarelo “quase como descarte”, só para quebrar o visual sombrio do Comediante. Foi Alan Moore quem decidiu manchá-lo de sangue na primeira página. Gibbons resumiu o efeito: “esse personagem grande e sombrio, com esse pequeno respingo de cor boba”. Vendeu milhões de camisetas depois e abriu o quadrinho mais importante já feito.
5. Toda capa da HQ é o primeiro quadro da edição
Dave Gibbons impôs uma regra dura ao desenhar as 12 capas: cada uma seria um close fotográfico de um único objeto, sem nenhum personagem em quadro. E aquela capa não era ilustração isolada — era literalmente o primeiro painel da página 1, levando o leitor para dentro da cena. É o tipo de exigência formal que separa Watchmen do resto dos quadrinhos da década de 1980.
6. Watchmen fez a DC ultrapassar a Marvel em 1987
As vendas das 12 edições foram tão fortes em 1986-87 que a DC encostou e ultrapassou rapidamente a Marvel no mercado direto de quadrinhos. Foi o ápice comercial da chamada “Era de Bronze” da DC, ao lado de Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Quando a poeira baixou, a Marvel retomou a liderança. Ainda assim, o feito de Moore, Gibbons e Higgins quebrou uma hegemonia que parecia eterna.
7. O título do primeiro capítulo veio de uma letra de Bob Dylan

“At Midnight, All the Agents” abre a edição #1. É um verso de Desolation Row, faixa do álbum Highway 61 Revisited (1965) de Bob Dylan. Moore usou Dylan, Elvis Costello e até a Bíblia como epígrafes pelos 12 capítulos. A própria pergunta-título da obra, “Quem Vigia os Vigilantes?”, é frase latina de Juvenal nas Sátiras, originalmente sobre escravos vigiando esposas. Acabou virando metáfora política dos quadrinhos.
8. John Higgins virou a paleta inteira da edição 6 para criar desespero
O colorista John Higgins usou uma paleta de tons secundários — laranja, roxo, verde — em vez do tradicional RGB heroico. Na edição 6, ele deliberadamente migrou das cores quentes para tons sombrios ao longo das páginas, espelhando a descida ao inferno psicológico de Rorschach contado pelo psiquiatra Malcolm Long. Trata-se de colorização como narrativa, algo raríssimo nos quadrinhos de 1986. O reflexo emocional vem da paleta, não do roteiro.
9. Alan Moore disse a frase exata para nunca mais voltar à DC
A briga eterna nasceu da cláusula de reversão de direitos da Watchmen, que a DC nunca devolveu a Moore e Gibbons porque a obra nunca saiu de catálogo. Moore declarou à editora: “Vocês conseguiram me enganar, e por isso nunca mais vou trabalhar para vocês”. Desde 1987 ele se recusa a receber royalties da DC e direciona qualquer pagamento para Gibbons. Repetiu o esquema em V de Vingança anos depois.
10. Terry Gilliam tentou filmar e desistiu chamando Watchmen de infilmável
Antes de Snyder, Terry Gilliam pegou o projeto nos anos 1990 pela Warner. Conseguiu só US$ 25 milhões de orçamento — um quarto do necessário — e abandonou afirmando: “Reduzir [a história] a duas horas e meia me parecia tirar a essência do que Watchmen é”. A produção entrou em development hell de outubro de 1987 a outubro de 2005. Quase duas décadas presa entre estúdios e diretores.
11. Aronofsky e Greengrass também tentaram e foram empurrados para fora
A fila de diretores expulsos é longa. David Hayter assumiu pela Universal em 2001, saiu por divergências em 2003. Darren Aronofsky entrou em 2004 pela Paramount e largou para fazer A Fonte da Vida. Paul Greengrass o substituiu mirando um lançamento em 2006 — a Paramount jogou o projeto em turnaround antes dele começar. Michael Bay também foi cogitado. Snyder só pegou em 2005, quando o projeto voltou para a Warner.
12. Jackie Earle Haley gravou audição com fantasia caseira na sala dele
Haley era fã da HQ desde os anos 80. Quando soube do projeto, comprou pano em casa, costurou a máscara do Rorschach, ligou a câmera na sala e mandou a fita para Zack Snyder. O diretor cravou: “Muito low-tech, mas atuação incrível. Claramente não havia outro Rorschach”. Haley levou o melhor personagem do filme. A cena “vocês estão presos comigo aqui dentro” virou um dos momentos mais lembrados.
13. Tom Cruise quis ser Ozymandias e Jude Law brigou pelo mesmo papel
A corrida pelo Adrian Veidt foi violenta. Tom Cruise fez lobby ativo pelo papel. Jude Law também perseguiu. Sob a gestão de Paul Greengrass, Joaquin Phoenix foi cogitado para Coruja II e Hilary Swank para Espectral. Snyder acabou ficando com Matthew Goode, Patrick Wilson e Malin Akerman. Cruise como o homem mais inteligente do mundo soa estranho hoje, mas quase aconteceu. O elenco final virou parte da identidade visual do filme.
14. Billy Crudup filmou com macacão branco e LEDs azuis grudados
Para o Dr. Manhattan, Billy Crudup vestiu um traje branco coberto de LEDs azuis durante as filmagens, criando o brilho azulado real para os parceiros de cena. Na pós, o corpo dele foi substituído digitalmente por um modelo baseado no fisiculturista Greg Plitt — só a cabeça de Crudup ficou. O resultado parece CGI puro, mas é motion capture com referência humana atlética. Camadas técnicas que poucos espectadores percebem.
15. Existem três cortes do filme e o mais longo tem 215 minutos

O Watchmen de Snyder existe em três versões oficiais. Cinemas: 162 minutos. Director’s Cut: 186 minutos, com 24 minutos extras. Ultimate Cut: 215 minutos, com o curta animado Tales of the Black Freighter intercalado dentro do filme como na HQ. Orçamento final ficou em torno de US$ 130 milhões. Snyder pediu US$ 150 mi, a Warner queria abaixo de US$ 100 mi — fechou no meio. Em retrospecto, foi a Warner que acertou: o filme renderia o suficiente para empatar, mas não o bastante para emplacar continuação imediata.
16. O filme faturou US$ 187 milhões e quase deu prejuízo
Watchmen arrecadou US$ 187 milhões de bilheteria global contra um orçamento de US$ 130 milhões mais marketing. Considerando a regra de Hollywood, em que um filme precisa fazer 2,5x o budget pra dar lucro, ele provavelmente fechou no zero a zero. Por isso a Warner nunca encomendou continuação, apesar do culto que se formou em torno do Director’s Cut. Em paralelo, o filme virou cult absoluto entre fãs da HQ.
17. Snyder trocou o polvo gigante pelo Dr. Manhattan acusado
O grande spoiler do filme: no clímax, Ozymandias não solta um polvo psíquico em Nova York como na HQ. Em vez disso, ele inventa explosões com a assinatura energética do Dr. Manhattan, jogando a culpa no único super-humano real do planeta. Snyder explicou: “levei uns 15 minutos pra explicar [o polvo] direito; senão fica meio doido”. A mudança preservou o desfecho moral sem o elemento mais bizarro do original.
18. A abertura com Bob Dylan resumiu 40 anos de história em 5 minutos
A abertura do filme, com The Times They Are A-Changin’ de Bob Dylan ao fundo e mais de uma dúzia de quadros em câmera lenta — Comediante atirando em JFK, dirigível Hindenburg, recriação do beijo em Times Square — é considerada por muitos críticos a melhor sequência da carreira de Snyder. Em cinco minutos, ela conta a história alternativa dos Minutemen e dos Watchmen. A trilha ainda traz Cohen, Simon e Garfunkel.
19. Alan Moore recusou os royalties e mandou tudo para Dave Gibbons
Como fez antes em V de Vingança, Alan Moore assinou contrato uncredited com o filme e direcionou 100% dos royalties autorais para Dave Gibbons. Não viu o filme, e antes ainda chamou o 300 de Snyder de “sublimemente estúpido” sem assistir. O nome de Moore não aparece em nenhum cartaz ou crédito oficial: só “co-criado por Dave Gibbons”. É a regra dele para qualquer adaptação desde os anos 1990.
20. Lindelof pediu a bênção de Alan Moore e levou um esporro por carta
Damon Lindelof escreveu uma carta a Alan Moore antes de produzir a série pedindo permissão. Em 2022, Moore revelou que a carta era “divagação neurótica” onde Lindelof se identificava como “um dos canalhas que estão destruindo Watchmen agora”. Moore pediu que ele nunca mais entrasse em contato. A HBO acabou creditando só Gibbons como cocriador nos materiais oficiais, sem mencionar Moore em parte alguma da divulgação.
21. A abertura no massacre de Tulsa nasceu de uma reportagem da Atlantic
Lindelof descobriu o Massacre de Tulsa de 1921 — quando o bairro negro próspero Black Wall Street foi bombardeado e queimado por turbas brancas — lendo o ensaio The Case for Reparations de Ta-Nehisi Coates na The Atlantic. Achou informação histórica mínima disponível e mergulhou na pesquisa, incluindo o bombardeio aéreo replicado no piloto. A cena de abertura reabriu o debate nacional sobre o evento por décadas esquecido.
22. Foram 26 indicações ao Emmy e 11 vitórias em 2020

No 72º Primetime Emmy, Watchmen liderou as indicações com 26 e ganhou 11 prêmios. Levou Melhor Minissérie, Melhor Atriz (Regina King), Melhor Ator Coadjuvante (Yahya Abdul-Mateen II) e Melhor Roteiro pelo episódio This Extraordinary Being. Trent Reznor e Atticus Ross levaram Melhor Composição Musical por It’s Summer and We’re Running Out of Ice. Foi um sweep dominante na premiação daquele ano. Yahya Abdul-Mateen II, em particular, ganhou seu primeiro Emmy na vida interpretando Cal Abar, marido caseiro de Angela que se revela ser o próprio Dr. Manhattan disfarçado.
23. Lulas caem do céu como tempestade na série da HBO
Trinta e quatro anos depois do polvo gigante da HQ, o evento virou rotina em Tulsa. Pequenas lulas caem do céu periodicamente como chuva (squid rain), e crianças aprendem na escola “anatomia de uma lula” como matéria comum. Veidt continua soltando-as do seu laboratório para manter a paranoia mundial ativa. O laboratório dele, aliás, tem relógios amarelos idênticos aos das capas da HQ original. Camada sobre camada de referências.
24. Foram só 9 episódios e Lindelof avisou que nunca terá temporada 2
A série rodou de 20 de outubro a 15 de dezembro de 2019, somando 9 episódios fechados. O finale teve 0,935 milhão de espectadores ao vivo e 1,51 milhão com DVR somado. Lindelof declarou à Inverse que só voltaria se outra pessoa quisesse criar a próxima — ele considera o arco encerrado. Por isso o show competiu como Limited Series no Emmy, não Drama. Decisão criativa rara em Hollywood.
25. A DC fez Dr. Manhattan enfrentar Superman em Doomsday Clock
Geoff Johns, então CCO da DC, escreveu Doomsday Clock entre 2017 e 2019 — 12 edições com arte de Gary Frank. Foi o primeiro crossover oficial entre Watchmen e o Universo DC tradicional, focando em Superman versus Dr. Manhattan. A série revelou-se por um teaser com o logo do Superman dentro do mostrador do relógio. Sem aval de Moore, claro. A franquia entrou de vez no panteão DC mainstream. Em paralelo, Tom King se uniu a Jorge Fornés em 2020 para escrever uma minissérie só de Rorschach pelo selo Black Label, passada 35 anos depois da HQ de Moore e Gibbons — outra extensão sem autorização do criador.
Watchmen em números
A escala da franquia em três encarnações resume por que ela continua sendo a referência absoluta dos quadrinhos adultos.
- 12 edições da HQ original entre setembro de 1986 e outubro de 1987
- Único quadrinho a vencer o Hugo Award e a entrar na lista Time dos 100 melhores romances
- US$ 187 milhões de bilheteria global do filme de Snyder em 2009
- 215 minutos de Ultimate Cut, a versão mais longa do filme
- 9 episódios e 11 Emmys da série HBO em 2019/2020
- 3 cineastas tentaram filmar e desistiram antes de Snyder pegar o projeto
A franquia segue se expandindo sem permissão de Alan Moore. Em 2024, a DC lançou em direct-to-video uma animação em duas partes adaptando a HQ original quadro a quadro. Lindelof já avisou que não volta. Snyder também não. Sobra a obra de Moore e Gibbons, plantada de cabeça para baixo no jardim, ainda alimentando pássaros — e continuando como referência impossível de superar.