The Last of Us custou mais de US$ 141 milhões só em Alberta — virou a maior produção já filmada em solo canadense. Estreou em janeiro de 2023 e levou 24 indicações ao Emmy, oito vitórias e a primeira adaptação de videogame a ser indicada como Melhor Série de Drama na história. A segunda temporada chegou em abril de 2025 com a morte de Joel e a estreia de Kaitlyn Dever como Abby.
O que ninguém te contou sobre a adaptação que mudou Hollywood
Pedro Pascal aceitou em 24 horas após McConaughey recusar, a girafa da cena final é real e se chama Nabo, Bella Ramsey foi diagnosticada com autismo durante a filmagem e o fungo Cordyceps que zumbifica formigas existe de verdade. Em paralelo, Troy Baker e Ashley Johnson — os Joel e Ellie originais — passaram como cameos pela temporada 1, e Jeffrey Wright reprisa o mesmo Isaac que dublou no jogo Part II. As 28 curiosidades a seguir cobrem jogos, série e bastidores.
1. Maior série já filmada no Canadá custou US$ 141 milhões
A primeira temporada de The Last of Us virou a produção mais cara já rodada em solo canadense, com mais de US$ 141 milhões gastos na província de Alberta segundo a Motion Picture Association. O número supera tranquilamente o orçamento das cinco primeiras temporadas de Game of Thrones e mexeu até com o PIB local. Quase metade da grana foi para fornecedores e serviços de Calgary, Canmore, High River e Fort Macleod, transformando a HBO em motor econômico no oeste canadense durante quase um ano de filmagem.
2. Pedro Pascal aceitou em 24 horas — e quase perdeu o papel
Quando a HBO mandou o convite em fevereiro de 2021, Pedro Pascal topou interpretar Joel em menos de 24 horas, recém-saído da segunda temporada de The Mandalorian. O detalhe é que ele não era a primeira escolha: Matthew McConaughey recusou e Mahershala Ali chegou a circular pela negociação antes de o acordo travar. Pascal escolheu o projeto pelo desejo de trabalhar com Craig Mazin (Chernobyl) e precisou pedir liberação aos produtores da Lucasfilm para conciliar as agendas.
3. Foram mais de 3 mil efeitos visuais espalhados por 16 estúdios
A primeira temporada acumulou mais de 3.000 planos com efeitos visuais distribuídos entre 16 empresas diferentes. Só a DNEG, responsável pela maior fatia, colocou 650 pessoas para entregar 535 cenas ao longo de 18 meses — entre clickers, fungos invadindo Boston e o cenário pós-apocalíptico de Pittsburgh. Mazin e Druckmann insistiram em câmera real sempre que possível, deixando o CGI para arrematar texturas e ambientação, e essa decisão rendeu o Emmy de Melhores Efeitos Visuais Especiais.
4. A girafa da cena final é real e se chama Nabo
A sequência da girafa no episódio 9, considerada uma das mais bonitas da televisão recente, foi gravada com bicho de verdade. A produção pegou emprestado um animal chamado Nabo de um zoológico próximo a Calgary, e usou CGI apenas para reconstruir o prédio destruído ao redor. A escolha homenageia o momento idêntico do jogo de 2013, recriado quase plano por plano com a trilha original de Gustavo Santaolalla. Nabo entrou para a história do streaming com um único take.
5. A pandemia da série acontece 10 anos antes da do jogo
Talvez você não tenha notado, mas Mazin deu uma puxada no relógio: o surto do Cordyceps no jogo original começa em 2013 e a parte presente acontece em 2033. Na série, tudo foi antecipado uma década — Joel perde Sarah em 2003 e a saga com Ellie se passa em 2023, ano da estreia. A mudança permite usar referências culturais mais palpáveis para o espectador atual, como Linda Ronstadt na vitrola de Bill e o estouro do filme A-Ha em flashbacks adolescentes.
6. O relógio quebrado de Joel ganha uma camada nova na série
No game de 2013, Sarah junta a mesada para comprar um relógio novo para Joel no aniversário. Na série, ela leva o relógio velho do pai para o conserto — e ele mesmo segura aquilo até o fim como relíquia. A frase “Your watch is broken”, que Ellie solta horas depois de conhecer Joel, sai direto do jogo, assim como a piada “I sell hardcore drugs”. Sutilmente, a HBO transforma o objeto em metáfora do tempo congelado pela tragédia.
7. A girafa de pelúcia no carro abandonado é spoiler escondido

Lá pelo episódio 4, quando Joel, Tess e Ellie cruzam uma ponte tomada de carros enferrujados, a câmera baixa um instante para os pés da garota — e tem uma girafa de pelúcia caída na roda. Quem zerou o jogo entende: cinco episódios depois, uma girafa real apareceria como o momento de respiro antes do desfecho trágico no hospital dos Vaga-lumes. Mazin admitiu em entrevistas que a sinalização foi proposital, plantada para premiar o olhar atento.
8. Cordyceps existe de verdade — mas o seu corpo derruba o bicho
A Naughty Dog se inspirou num episódio do Planet Earth da BBC, narrado por David Attenborough, que mostrava o fungo Ophiocordyceps unilateralis zumbificando formigas. Existe mesmo: ele penetra o exoesqueleto do inseto, sequestra o sistema nervoso e força o hospedeiro a subir num galho antes de explodir cogumelos pelo crânio. Cientistas ouvidos pela CNN garantem que pular para humanos é praticamente impossível por causa da nossa temperatura corporal — o calor cozinha o fungo antes que ele se acomode.
9. Sarah entrega um DVD que será o filme favorito de Joel em Part II
Na cena do aniversário, antes do apocalipse explodir em Austin, Sarah dá a Joel um DVD do fictício Curtis e Viper 2. Quem jogou The Last of Us Part II reconhece de cara: Ellie e Joel discutem esse mesmo filme cafona oitentista em um dos flashbacks mais emocionantes da sequência. É um plant-and-payoff transmidiático: a HBO planta na temporada 1 algo que só faz sentido completo quando o público chega na linha temporal da segunda temporada.
10. Troy Baker e Ashley Johnson, os Joel e Ellie originais, fazem cameos
Os atores que deram voz e captura de movimento para Joel e Ellie nos games passaram por episódios cruciais da temporada 1. Troy Baker aparece como James, o braço direito do canibal David, no episódio 8 — e morre nas mãos da Ellie de Bella Ramsey, em uma inversão simbólica. Ashley Johnson interpreta Anna, mãe biológica de Ellie, no flashback do episódio 9 que mostra o parto da menina já sob ataque dos infectados. Passagem de bastão geracional escancarada.
11. Kaitlyn Dever recusou virar fisiculturista para viver Abby
A polêmica sobre Kaitlyn Dever como Abby explodiu antes da temporada 2 ir ao ar: a personagem é desenhada no jogo com base no físico da crossfitter Colleen Fotsch, com braços enormes, enquanto Dever tem 1,57m e estrutura mediana. Druckmann bancou a escolha publicamente: “Não vale a pena perder a Kaitlyn por buscar quem combinasse fisicamente. A própria atriz admitiu à imprensa que “é difícil não ver os comentários online”, mas entregou uma Abby intensa o suficiente para silenciar parte dos puristas.
12. Jeffrey Wright reprisa o mesmo papel que fez no videogame
Caso raríssimo nas adaptações: Jeffrey Wright já era Isaac Dixon, líder dos Lobos (WLF) em Seattle, no The Last of Us Part II de 2020 — voz e captura de movimento. Na temporada 2 da HBO, ele simplesmente reprisa o papel diante das câmeras. Nem Troy Baker nem Ashley Johnson conseguiram esse privilégio, restritos a personagens secundários. Wright soma a experiência com Westworld e a saga James Bond, e dá peso shakespeariano ao general que disputa Seattle com os Serafitas.
13. Bella Ramsey foi diagnosticada com autismo durante a filmagem da T1
Bella Ramsey revelou em 2025 que descobriu o próprio autismo enquanto rodava a primeira temporada. Um membro da equipe, que tem uma filha autista, percebeu certos comportamentos no set e sugeriu a avaliação. O diagnóstico veio em seguida e Ramsey, que se identifica como não-binárie, descreve o resultado como “libertador”. A atriz acrescenta que a hipersensibilidade e a leitura minuciosa de microexpressões alheias acabam ajudando no ofício — vide a Ellie crua e instintiva que valeu uma indicação ao Emmy aos 19 anos.
14. Estreia segurou 4,7 milhões e bateu recorde só atrás de House of the Dragon

O episódio 1, “When You’re Lost in the Darkness”, levou 4,7 milhões de espectadores no domingo de estreia da TV linear somada à HBO Max — segunda maior estreia da casa desde 2010, atrás apenas de House of the Dragon, que abocanhou 9,98 milhões. Em 48 horas, o piloto já tinha sido visto por 10 milhões de pessoas. O final da temporada explodiu para 8,2 milhões num único dia e a média da temporada cravou 32 milhões por episódio, segundo a própria Warner Bros. Discovery.
15. 24 indicações no Emmy 2023 — só atrás de Succession
Em sua estreia, The Last of Us emplacou 24 indicações ao Primetime Emmy 2023, atrás apenas das 27 de Succession. Foram oito vitórias entre o Creative Arts e a cerimônia principal, incluindo Ator e Atriz Convidados em Drama (Nick Offerman e Storm Reid), Efeitos Visuais, Edição de Som, Edição de Imagem, Maquiagem Protética, Som e Música Original. A série virou o primeiro fenômeno videogame a entrar com força nas grandes categorias do prêmio.
16. Temporada 2 abriu com 5,3 milhões — 13% acima da T1
Estreando em 13 de abril de 2025, a temporada 2 entregou 5,3 milhões de espectadores na noite de domingo, segundo a HBO. Crescimento de 13% sobre a primeira temporada num cenário muito mais saturado de streaming. Pela contagem global de 90 dias, o show chegou a quase 37 milhões de visualizações médias por episódio e voltou a colocar Part II em alta: o jogo de 2020 vendeu mais 2 milhões de cópias durante o período de exibição da T2, segundo a NPD.
17. O jogo original chegou a 20 milhões de cópias até 2019
Lançado em 14 de junho de 2013 para PlayStation 3, The Last of Us bateu 1,3 milhão de cópias na primeira semana — maior estreia daquele ano. Em abril de 2018, somando PS3, PS4 Remastered e PC depois, o número cravou 17 milhões; em maio de 2019, ultrapassou 20 milhões. Metacritic 95/100, ganhou Game of the Year do BAFTA, do D.I.C.E. e do Game Developers Choice. A Naughty Dog colocou pela primeira vez dois times em paralelo — o outro fazia Uncharted 3.
18. Part II quebrou recorde de exclusivo de PS4 com 4 milhões em um fim de semana
Em junho de 2020, The Last of Us Part II vendeu mais de 4 milhões de cópias só no fim de semana de estreia, superando os 3,3 milhões de Marvel’s Spider-Man e os 3,1 milhões de God of War na mesma janela. Virou o exclusivo de PS4 mais rápido a vender. Em junho de 2022, a Naughty Dog confirmou 10 milhões de cópias globais. Apesar das controvérsias dos fãs com a morte de Joel, o título limpou os Game Awards de 2020 com sete vitórias incluindo Jogo do Ano.
19. “Long, Long Time” virou episódio definitivo sobre amor masculino na TV
O episódio 3 da primeira temporada abandona Joel e Ellie por quase uma hora para acompanhar Bill (Nick Offerman) e Frank (Murray Bartlett), um casal que constrói duas décadas de relacionamento no fim do mundo. Escrito por Mazin, dirigido por Peter Hoar, com trilha de Linda Ronstadt e Gustavo Santaolalla, virou marco da representação queer em TV mainstream. Offerman levou o Emmy de Ator Convidado em Drama. Crítica norte-americana praticamente unânime: melhor episódio do ano.
20. Gustavo Santaolalla traz o ronroco e dois Oscars para o fim do mundo
O argentino Gustavo Santaolalla, ganhador de dois Oscars consecutivos (Brokeback Mountain em 2006, Babel em 2007), assina a trilha dos dois jogos e da série. O instrumento característico é o ronroco, um cordofone andino pequenino que soa entre charango e violão — base do tema principal. Para a HBO, Santaolalla também adaptou suas próprias melodias, dividindo a partitura com David Fleming, e ganhou indicações no Emmy. Cada acorde de “Long, Long Time” tem essa assinatura latina.
21. Ellie e Riley: o primeiro beijo lésbico que dividiu o gamer-mundo

Antes da série, a Naughty Dog lançou o DLC Left Behind (2014), onde Ellie adolescente vive um romance com a melhor amiga Riley num shopping abandonado. A cena do beijo virou pauta de talk shows e fóruns inflamados na época. A HBO recria o flashback no episódio 7 da temporada 1, com Storm Reid como Riley — papel que rendeu o Emmy de Atriz Convidada em Drama. A continuidade entre game e série reforça que Ellie nunca foi um símbolo LGBTQ acidental: ela já nasceu queer desde o roteiro original.
22. Joel morre no episódio 2 da T2 — e o método é mais brutal que no jogo
Em “Through the Valley”, ao ar em 20 de abril de 2025, Abby executa Joel com um taco de golfe diante de Ellie, refém com a cabeça segurada pelos lobos. A cena foi anunciada como ainda mais brutal que a do jogo de 2020, segundo Mazin e Druckmann em entrevista à Deadline. O choque mexeu com o público mesmo entre quem já tinha zerado Part II — havia esperança de que a HBO suavizasse a sequência. Não suavizou. O luto que estrutura o resto da temporada começa ali, na pancada inicial.
23. Halley Gross, co-roteirista de Part II, entrou para o time da T2
Para a segunda temporada, Mazin e Druckmann chamaram Halley Gross, co-autora do roteiro de The Last of Us Part II, para a sala de roteiro da HBO. Para a T3, anunciada para gravar entre março e novembro de 2026 em British Columbia, entra também Ryan James, vindo da Naughty Dog. É uma migração explícita: gente que escreveu o jogo migrando para escrever a série. Garante que decisões importantes — como redistribuir o ponto de vista de Ellie e Abby — fiquem em mãos de quem inventou o material.
24. Os títulos dos episódios são todos referências a canções
Mazin transformou cada título de episódio em easter egg musical. Na T1, “Long, Long Time” cita Linda Ronstadt e fecha o capítulo de Bill e Frank ao som da própria faixa. “Look for the Light”, que encerra a temporada 1, vem de uma música da Ellie original. Na T2, “Future Days” puxa Pearl Jam — letra que Ellie canta para Dina no jogo. É a partitura ditando o título antes mesmo da história. Detalhe que rendeu artigos inteiros do Genius e da Vulture mapeando cada referência.
25. Sessão de filmagem na Colúmbia Britânica reuniu 1.800 pessoas no pico
A segunda temporada migrou de Alberta para British Columbia, filmando entre fevereiro e agosto de 2024 em mais de 60 locações pela província. No pico, a equipe somou entre 1.200 e 1.800 pessoas — número de longa-metragem de estúdio, raríssimo para série. A mudança de localidade ajudou a recriar Seattle e o lendário aquário onde se passa metade da história de Part II. A T3, também confirmada para BC, deve ampliar ainda mais a operação canadense.
26. Bella Ramsey foi escolhida sem audição presencial
Mazin e Druckmann assistiram Bella Ramsey em Game of Thrones (como Lyanna Mormont) e His Dark Materials, e a chamaram para fitas de teste durante a pandemia. Aos 18 anos no início das filmagens — Ellie tem 14 no game — a atriz foi escolhida apesar das diferenças físicas com a personagem desenhada por Ashley Johnson. A torcida contrária dos puristas do videogame antecipou, em escala menor, a polêmica que Kaitlyn Dever sofreria como Abby três anos depois. No fim, Ramsey foi indicada ao Emmy de Melhor Atriz em Drama.
27. O sucesso fez Hollywood revisar a régua das adaptações de jogo
Antes de The Last of Us, “boa adaptação de videogame” era oximoro. Depois dela, virou tese de pitch: Fallout (Amazon, 2024), Twisted Metal (Peacock), o filme Super Mario Bros. e o renascimento de Sonic e Detective Pikachu. The Last of Us provou ser possível ganhar Emmy de drama com um jogo de tiro como base. Druckmann inclusive virou consultor não-oficial dessas produções e a Naughty Dog se transformou em referência sobre como controlar IP em vez de licenciar para qualquer um.
28. Druckmann adaptou o próprio jogo — coisa rara no audiovisual
Pouquíssimos criadores conseguem migrar como showrunners da indústria de jogos para a TV adaptando o próprio material. Hideo Kojima nunca rodou Metal Gear, Hidetaka Miyazaki não dirige Elden Ring na Netflix. Neil Druckmann fez exatamente isso: assinou diretor criativo dos dois games, foi co-roteirista e co-showrunner da série na T1 e T2 ao lado de Craig Mazin. Druckmann anunciou em 2025 que sai da sala de roteiro a partir da terceira temporada para focar em projetos da Naughty Dog — incluindo um possível Part III.
The Last of Us em números
A escala da franquia em proporção ao orçamento inicial do jogo de 2013 explica por que ela continua sendo a referência de adaptação de videogame em Hollywood.
- US$ 141 milhões+ de orçamento da T1 só em Alberta — maior produção já filmada no Canadá
- 24 indicações ao Emmy 2023, com 8 vitórias incluindo Outstanding Drama Series
- 20 milhões de cópias do jogo original somando PS3, PS4 Remastered e PC até 2019
- 10 milhões de cópias de Part II em 2 anos, com mais 2 milhões durante a T2 da série
- 3.000+ planos de efeitos visuais entregues por 16 estúdios diferentes na T1
- 4,7 milhões de espectadores na estreia da série — segunda maior abertura da HBO desde 2010
A T3 já está confirmada para gravar entre março e novembro de 2026 em British Columbia, e Druckmann sai da sala de roteiro depois dela. Pedro Pascal disse em entrevista à Vanity Fair que continuará envolvido em flashbacks de Joel, mesmo após a morte do personagem no episódio 2 da T2. Ellie agora carrega o resto da história sozinha — e Bella Ramsey, com 21 anos e o autismo recém-diagnosticado, é o motor emocional do que a HBO chama de uma das maiores apostas em série dramática do streaming pós-pandemia.