Eles dançam, estalam os dedos e adoram um clima macabro. Mas a Família Addams é muito mais antiga e estranha do que a febre de Wandinha na Netflix faz parecer. A trupe nasceu em uma única página de revista, sobreviveu a processos milionários, espartilhos de metal e até a uma mão andante que dava trabalho dobrado. Reunimos os segredos de bastidor que atravessam quase um século de adaptações.
O que quase um século de adaptações escondeu sobre a família mais sombria da cultura pop
Do cartum em preto e branco dos anos 1930 à coreografia que dominou o TikTok, a história real por trás dos Addams é tão bizarra quanto os próprios personagens. A seguir, 30 curiosidades verificadas que poucos fãs conhecem.
1. A família nasceu sem nome em uma única página de revista
Antes de tudo, a Família Addams era só um bando de esquisitões anônimos. Charles Addams desenhou o primeiro cartum deles em 6 de agosto de 1938, na revista New Yorker, como gags isoladas de personagens sem nome nem história. Foram cerca de 58 cartuns ao longo dos anos 1940 e 1950. Os nomes só vieram décadas depois. Morticia e Wandinha foram batizadas numa coleção de bonecas licenciada em 1962, e Gomez e Feioso ganharam nome só quando a série de TV estreou, em 1964.
2. Ele foi recusado para um papel, raspou a cabeça e voltou
Jackie Coogan foi cortado do papel de Tio Chico na série de 1964. Não aceitou o não. Foi para casa, raspou a própria cabeça, montou a maquiagem e o figurino por conta própria e voltou para os produtores. A insistência funcionou: ficou com o papel e virou um dos rostos mais icônicos da TV americana. Coogan, aliás, já tinha sido astro mirim ao lado de Chaplin em O Garoto, décadas antes.
3. A fala mais famosa do mordomo foi um improviso de set
Tropeço nasceu para só grunhir. O roteiro original não previa diálogo nenhum para o gigante de Ted Cassidy. Mas numa cena em que a família tocou a campainha do serviço, Cassidy soltou de improviso o lendário “You rang?” com aquele vozeirão grave. O timing era tão perfeito que os roteiristas reescreveram o personagem para ganhar falas. De figurante mudo a frase de efeito eterna, por puro acidente de gravação.
4. Cher quis ser Morticia, mas o papel já tinha dona
Anthony Hopkins recusou o Tio Chico de 1991. Cher demonstrou interesse em ser Morticia, e Olivia Hussey também foi cogitada, mas o produtor Scott Rudin sempre teve uma única escolha em mente: Anjelica Huston. Ela aceitou na hora ao saber que poderia reviver os quadrinhos de Charles Addams que lia quando criança. Huston construiu a personagem se inspirando no visual da modelo Jerry Hall, então namorada de Mick Jagger.
5. O tema de abertura tem três vozes e todas são do mesmo homem
Aquele assobio e o coro de “creepy and kooky” da abertura de 1964 parecem um grupo cantando. Não são. O compositor Vic Mizzy gravou as três partes vocais sozinho, usando multitracking, porque o estúdio se recusou a pagar por três cantores. Mizzy economizou e ainda criou um dos jingles mais reconhecíveis da história da TV. Aquele estalo de dedos no ritmo virou marca registrada da franquia inteira, dos filmes à série da Netflix.
6. Charles Addams desenhou mais de mil cartuns até morrer
A carreira de Charles Addams na New Yorker começou modesta: um desenho de um limpador de janelas, publicado em 6 de fevereiro de 1932. Daí até sua morte, em 1988, ele produziu mais de 1.300 cartuns para a revista. A Família Addams foi só uma fatia dessa obra, mas a que ficou imortal. O homem praticamente definiu o humor macabro americano em página única, e fez isso por mais de cinco décadas no mesmo veículo.
7. O Tio Chico usou uma roupa emprestada de O Poderoso Chefão
Christopher Lloyd não precisou engordar para virar o redondo Tio Chico em 1991. Ele simplesmente pegou emprestada a barriga falsa que Bruno Kirby tinha usado em O Poderoso Chefão Parte II. Uma fatsuit clássica do cinema reaproveitada para a comédia macabra. Lloyd ainda criou por conta própria as caretas e distorções faciais do personagem, improviso que rendeu elogios de Raul Julia, parceiro de cena que admirava as escolhas do colega.

8. A casa dos Addams foi reciclada de outro filme da MGM
O cenário interno da mansão na série de 1964 não foi construído do zero. Era set reaproveitado de A Inconquistável Molly Brown, da MGM, lançado meses antes. Outro detalhe que a TV preto e branco escondia: as paredes do set eram cor-de-rosa. Curiosamente, a inspiração para o interior macabro veio do apartamento real de Charles Addams em Manhattan, recheado de armaduras, uma coleção de bestas antigas e outras esquisitices.
9. Um pai cantando o tema num furgão deu origem ao filme
O filme de 1991 começou do jeito mais improvável. O filho de um executivo da Fox começou a cantar o tema da Família Addams dentro de um furgão cheio de gente do estúdio, e em segundos todo mundo estava cantando junto. O produtor Scott Rudin viu ali uma mina de ouro e levou a ideia direto para o chefão Barry Diller, que aprovou na hora. Um surto coletivo de nostalgia virou produção de 30 milhões de dólares.
10. O editor da New Yorker baniu a própria criação da revista
Enquanto a série fazia sucesso na TV nos anos 1960, William Shawn, editor da New Yorker, simplesmente proibiu qualquer cartum da Família Addams nas páginas da revista. Ele continuava publicando outros trabalhos de Charles Addams, mas torcia o nariz para os personagens que viraram celebridade da telinha. Shawn considerava a revista um produto refinado e não queria associá-la a algo tão popular. Um esnobismo curioso contra a galinha dos ovos de ouro do próprio cartunista.
11. Estourou o orçamento, mudou de estúdio e ainda lucrou alto
O filme de 1991 passou 5 milhões de dólares do orçamento por causa de reescritas, e a Orion Pictures, com problemas financeiros, repassou a produção para a Paramount no meio do caminho. O risco valeu: feito por 30 milhões de dólares, o longa faturou 191 milhões na bilheteria mundial. Já a sequência de 1993, aclamada pela crítica, foi a inversão do roteiro: agradou os jornalistas e decepcionou nas bilheterias.
12. A primeira mão decepada da TV e o computador pioneiro
Ted Cassidy não interpretava só Tropeço na série de 1964. Ele também era a Coisa, a mão decepada que saía das caixas. Acúmulo de função para um ator só. E tinha mais inovação no set: o programa exibiu um computador UNIVAC, o primeiro computador doméstico a aparecer na televisão americana. Detalhe geek num programa de monstros, anos antes de o computador pessoal virar realidade na casa de qualquer família comum.
13. O ator do pai tinha ido fazer teste para o mordomo
John Astin chegou à série de 1964 querendo ser Tropeço, o mordomo silencioso. Não se imaginava no papel e os produtores também não. Mas enxergaram nele outra coisa: o Gomez perfeito. Astin assumiu o patriarca apaixonado e ficou tão identificado com o personagem que voltou a dublá-lo na animação de 1992, quase trinta anos depois da primeira aparição. Poucos atores carregam um papel por três décadas como ele carregou Gomez.
14. O diretor estreante teve que assumir a câmera no fim das filmagens
O filme de 1991 foi um inferno de produção. Dois diretores de fotografia abandonaram o barco: Owen Roizman saiu depois de um mês para outro filme, e o substituto Gale Tattersall foi parar no hospital com uma sinusite grave. Resultado: Barry Sonnenfeld, em sua estreia como diretor, teve que terminar as últimas semanas acumulando direção e fotografia. Ele ainda desenvolveu ciática durante as filmagens. As 20 semanas de gravação foram puro caos.

15. Morticia sofreu de verdade dentro daquele figurino
O visual hipnótico de Anjelica Huston como Morticia cobrava um preço cruel. A atriz usava um espartilho de metal apertadíssimo, não conseguia se deitar nem descansar de figurino, e tinha os olhos puxados para trás com cordão e cola de espírito para criar aquele olhar felino. As tiras de tecido grudadas nas têmporas e no maxilar provocavam dores de cabeça brutais quando ficavam tempo demais. Sofrer pela elegância sombria, literalmente.
16. A Coisa exigia gravar cada cena duas vezes
A Coisa, a mão andante do filme de 1991, era o mágico Christopher Hart. Para o truque funcionar, cada cena tinha que ser filmada duas vezes: uma com Hart presente movimentando a mão e outra sem ele, para apagar o corpo digitalmente depois. Foram quatro meses de trabalho só para a Coisa, com duas horas de maquiagem por dia. Diferente das versões anteriores, aqui a mão finalmente andava livre pelo cenário.
17. Uma criança de oito anos reescreveu o final do filme
O roteiro original de 1991 mantinha o Tio Chico como um impostor até o fim, sem ser o verdadeiro tio da família. Raul Julia, Anjelica Huston e principalmente a pequena Christina Ricci se rebelaram contra a ideia. Acharam o desfecho injusto e cruel. Barry Sonnenfeld ouviu o elenco e mudou o final do filme. Um caso raro de atores, incluindo uma menina de oito anos, vencendo o roteiro original de um grande estúdio de Hollywood.
18. O criador da série dos anos 60 processou o filme em 50 milhões
David Levy, criador da série de TV de 1964, não engoliu o sucesso do cinema. Em 1992 ele processou a Paramount em 50 milhões de dólares, alegando ter desenvolvido as personalidades dos personagens e criado figuras como a Coisa e o Primo Itt, ausentes dos cartuns originais de Charles Addams. A briga foi resolvida fora dos tribunais antes que ameaçasse a produção da sequência. Uma guerra de créditos entre adaptações da mesma família.
19. O diretor mentiu para as crianças chorarem de verdade
Numa cena em que Morticia vira professora, Barry Sonnenfeld precisava de crianças chorando convincentemente. A solução do diretor foi cruel e eficaz: ele contou aos pequenos atores que eles tomariam vacinas de sarampo. O pânico fez o resto, e as lágrimas saíram naturais. Métodos questionáveis à parte, a cena funcionou. Sonnenfeld nunca escondeu que faria quase qualquer coisa para extrair a reação certa de um set, mesmo enganando crianças.
20. A avó da sequência é mais nova que a própria filha
Em A Família Addams 2, de 1993, Carol Kane substituiu Judith Malina como a Vovó. O detalhe bizarro: Kane interpretava a mãe de Morticia, mas na vida real é 11 meses mais nova que Anjelica Huston, sua filha na tela. As duas, aliás, eram amigas íntimas desde os 19 anos. Kane foi escalada sem teste nenhum, Sonnenfeld simplesmente ofereceu o papel numa conversa casual. Maquiagem pesada cobriu a aritmética impossível.
21. Um pinball virou o mais vendido da história graças à família
A franquia não dominou só telas. A máquina de pinball The Addams Family, lançada em 1992 no embalo do filme, virou a mais vendida de todos os tempos, com mais de 20 mil unidades fabricadas. Um recorde absoluto no mundo dos fliperamas. A máquina trazia vozes de Raul Julia e Anjelica Huston e alvos com a Coisa. Prova de que a febre dos Addams nos anos 1990 foi muito além do cinema.

22. Foi um dos últimos trabalhos de uma lenda à beira da morte
A Família Addams 2, de 1993, foi um dos últimos filmes de Raul Julia. O ator porto-riquenho tinha sido diagnosticado com câncer de estômago em 1991 e morreria em 1994, aos 54 anos. A química elétrica entre seu Gomez e a Morticia de Anjelica Huston ficou marcada como uma das melhores parcerias românticas do cinema de comédia. Julia interpretou um Gomez vibrante mesmo já lutando contra a doença nos bastidores.
23. Ela fez o teste de Wandinha coberta de sangue falso
Jenna Ortega chegou ao teste de Wandinha vinda direto do set do terror X, ainda coberta de sangue falso. A imagem impressionou tanto Tim Burton que o diretor a procurou pessoalmente. Detalhe curioso: por causa da pandemia, Burton só conheceu Ortega por chamada de vídeo e só a viu ao vivo quando as filmagens começaram. Mesmo pela tela do Zoom, ele já tinha certeza de que ela era a Wandinha perfeita.
24. O olhar fixo mais famoso da série foi um acaso
A Wandinha de Jenna Ortega quase nunca pisca, e isso não estava no roteiro. Ortega gravou uma cena inteira sem piscar, e Tim Burton gostou tanto do efeito perturbador que transformou aquilo numa marca permanente da personagem. Ortega ainda aprendeu esgrima, arco e flecha, canoagem e fez aulas de violoncelo duas vezes por semana para o papel. Dedicação física que sustentou a versão mais aclamada da herdeira sombria dos Addams.
25. A coreografia viral da dança foi inventada pela própria atriz
A dança de Wandinha ao som de Goo Goo Muck, do The Cramps, virou fenômeno mundial em 2022. E não teve coreógrafo profissional: Jenna Ortega criou cada passo sozinha. Ela se inspirou em Bob Fosse, na cantora gótica Siouxsie Sioux e em movimentos do goth oitentista. Para piorar o desafio, gravou a cena pouco depois de se recuperar da Covid. A coreografia improvável dominou o TikTok por meses e definiu a série.
26. A diretora de Nevermore homenageia um clássico de Hitchcock
Tim Burton encheu Wandinha de detalhes escondidos. O figurino da diretora Larissa Weems foi inspirado em Tippi Hedren no filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock. O café Weathervane esconde easter eggs do próprio Burton, e as gárgulas de Nevermore representam as panelinhas da escola, com expressões que mudam conforme o ângulo da câmera. A Coisa, agora, é o mágico Victor Dorobantu num traje azul, às vezes sobre plataformas motorizadas para se mover pela cena.
27. A Wandinha original voltou como vilã da nova Wandinha
Christina Ricci, a Wandinha inesquecível dos filmes de 1991 e 1993, voltou ao universo Addams na série da Netflix. Mas não como a protagonista. Ela interpreta Marilyn Thornhill, papel que ganhou contornos sinistros. A vaga surgiu quando Thora Birch deixou a produção por um assunto pessoal. Ricci e Ortega evitaram de propósito trocar notas sobre a personagem, já que suas Wandinhas representam pessoas muito diferentes, separadas por três décadas de adaptações.
28. Tim Burton quase fez os Addams em stop-motion anos antes
Antes de Wandinha, Tim Burton já tinha flertado com a família. Ele chegou a ser cogitado para dirigir o filme de 1991, junto com Terry Gilliam, mas ambos recusaram e a vaga ficou com o estreante Barry Sonnenfeld. Anos depois, Burton esteve ligado a uma adaptação em stop-motion baseada nos desenhos originais de Charles Addams, projeto cancelado por volta de 2013. Só em 2022, com a série da Netflix, ele finalmente cravou sua marca no universo Addams.
29. Uma estrela mirim do Oscar dublou Feioso antes da fama
A franquia tem conexões inesperadas com grandes nomes. Num crossover animado de 1972, quem dublou Feioso foi Jodie Foster, então com 11 anos, anos antes de virar duas vezes vencedora do Oscar. E o elo mais persistente é John Astin: o Gomez de 1964 voltou a dublar o personagem na animação de 1992, quase trinta anos depois. A família atravessou gerações de atores, do cartum em página única à Netflix.
30. A série bateu um recorde da Netflix em uma só semana
Wandinha não foi só sucesso de crítica. A série de Tim Burton quebrou o recorde da Netflix de mais horas assistidas em uma semana para uma produção de TV em inglês: 341,2 milhões de horas. O número superou a quarta temporada de Stranger Things, então a maior aposta da plataforma. Filmada na Romênia, incluindo a cidade montanhosa de Bușteni, a série provou que a família macabra ainda domina audiências quase um século depois.
A Família Addams em números
De cartum esquecido a fenômeno global, a trajetória da família mais sombria da cultura pop cabe em alguns marcos impressionantes.
- 6 de agosto de 1938 — data do primeiro cartum na revista New Yorker
- Mais de 1.300 cartuns — desenhados por Charles Addams entre 1932 e 1988
- 64 episódios — total da série de TV clássica, em duas temporadas (1964-1966)
- US$ 30 milhões — orçamento do filme de 1991, que faturou US$ 191 milhões
- Mais de 20 mil unidades — do pinball de 1992, o mais vendido da história
- 341,2 milhões de horas — recorde da Netflix batido por Wandinha em uma semana
Quase um século depois daquele primeiro rabisco macabro, os Addams seguem provando que o estranho nunca sai de moda. Cada geração reinventa a família a seu modo, mas o estalo de dedos continua o mesmo desde 1964. E pelo visto, ainda há muito segredo de bastidor esperando para sair do caixão.