O País das Maravilhas de Tim Burton parece todo construído por mágica, mas a verdade é bem mais suja: tela verde dominando o set, gente enjoando entre as cenas e um 3D que nem existia de verdade. Por trás do filme que cravou US$ 1 bilhão há uma fileira de decisões inusitadas, do método aquarela de Johnny Depp ao clássico animado de 1951 que fracassou e ressuscitou. Reunimos os segredos das versões mais marcantes de Alice.
O que se esconde por trás de quase um século de Alices nas telas
Da animação modernista de Mary Blair em 1951 ao épico bilionário de Burton em 2010, a história de bastidor é tão maluca quanto o próprio País das Maravilhas. A seguir, 26 curiosidades verificadas.
1. 90% do filme foi rodado contra uma parede verde
Cerca de 90% de Alice no País das Maravilhas foi filmado em tela verde, e essa etapa foi concluída em apenas 40 dias. Era a primeira vez que Tim Burton trabalhava nesse formato. Para suportar o verde dominante no set, Burton mandou colocar lentes lavanda nos próprios óculos. Não adiantou para todo mundo: era comum elenco e equipe ficarem enjoados durante as filmagens. Quase tudo que aparece no País das Maravilhas foi construído depois, em pós-produção.
2. Depp pintou o Chapeleiro em aquarela antes de filmar
Depp tem um método: pinta uma aquarela do personagem para achar o rosto e a alma dele. Para o Chapeleiro, pesquisou o envenenamento por mercúrio que enlouquecia os chapeleiros de verdade, daí veio a expressão “louco como um chapeleiro”. Pintou um personagem de cabelo laranja, cara de palhaço e olhos verdes de tamanhos diferentes. Curiosamente, Burton fez seus próprios desenhos em paralelo. Quando compararam, as visões batiam. Burton viu os esboços e disse: “É isso”.
3. Jennifer Lawrence quase foi a Alice
Antes de Mia Wasikowska fechar o papel, vários nomes passaram pela cabeça da produção para viver Alice: Jennifer Lawrence, Lindsay Lohan, Frances Bean Cobain (filha de Kurt Cobain), Cara Delevingne e Jessica Brown Findlay. A escolha por Wasikowska, então pouco conhecida, deu ao filme uma Alice de 19 anos com cara de quem não sabia o que era um blockbuster bilionário, exatamente o que Burton procurava.
4. Foi o sexto filme da história a passar de 1 bilhão
Em 26 de maio de 2010, no 85º dia em cartaz, Alice cravou 1 bilhão de dólares e virou o sexto filme da história a chegar lá, e o segundo da Disney. O fim de semana de estreia rendeu 116,1 milhões só na América do Norte e 220,1 milhões no mundo. A divisão final foi de 332,3 milhões domésticos contra cerca de 668 milhões no exterior. Fechou como segundo maior do ano, atrás só de Toy Story 3.
5. O 3D que você viu no cinema era falso
Burton rodou tudo em 2D e converteu para 3D na pós-produção, na esteira do furor causado por Avatar. Não foi captado nativamente em três dimensões. Mesmo assim funcionou no bolso da Disney: o 3D respondeu por 81,3 milhões de dólares do fim de semana de estreia, cerca de 70% do total. A direção de efeitos visuais ficou com Ken Ralston, e o trabalho pesado de animação saiu da Sony Pictures Imageworks.
6. Anne Hathaway definiu a Rainha Branca como punk-rock vegana
Anne Hathaway descreveu sua Rainha Branca como uma “pacifista vegana punk-rock”. Para construir os gestos delicados e o ar etéreo da personagem, buscou inspiração em duas musas improváveis: Debbie Harry, vocalista do Blondie, e a diva clássica Greta Garbo. O resultado é uma rainha que flutua e mantém as mãos sempre erguidas, um maneirismo que Hathaway inventou em cena para reforçar a recusa da personagem à violência.
7. A cabeça da Rainha Vermelha foi inflada digitalmente
Helena Bonham Carter não tem a cabeça gigante que aparece na tela. Os efeitos visuais ampliaram digitalmente a cabeça da Rainha Vermelha para três vezes o tamanho real. O mesmo tipo de manipulação atingiu o Chapeleiro de Johnny Depp: seus olhos foram aumentados entre 10% e 15% além do natural. Burton queria rostos deformados de propósito, fiéis ao tom de pesadelo encantado que perseguia no projeto.

8. Depp virou o primeiro ator a liderar dois bilionários
Com Alice, Johnny Depp entrou para a história como o primeiro astro a encabeçar dois filmes que passaram de 1 bilhão de dólares, o primeiro tinha sido Piratas do Caribe: O Baú da Morte. O sucesso foi tão estrondoso que Alice respondeu sozinho por 36% de toda a bilheteria de março nos Estados Unidos. Para Depp, foi a confirmação de que seu nome movia plateia inteira.
9. O sotaque do Chapeleiro veio de uma sitcom escocesa
Quando o Chapeleiro fica mais sério, Depp escorrega para um sotaque escocês carregado. Não foi acaso: ele modelou a voz no personagem de Gregor Fisher na sitcom britânica Rab C. Nesbitt. A ideia era que o Chapeleiro tivesse dois registros, um agitado e palhaço, outro melancólico e quase sussurrado. Era a sétima parceria de Depp com Burton desde Edward Mãos de Tesoura, uma das duplas mais longevas do cinema.
10. O roteiro não é adaptação: é sequência disfarçada
Quem espera o livro de Lewis Carroll se frustra. A roteirista Linda Woolverton escreveu uma continuação: Alice tem 19 anos e volta ao País das Maravilhas, aqui rebatizado de Underland, anos depois da infância. O filme mistura elementos dos dois livros de Carroll, Alice no País das Maravilhas, de 1865, e Através do Espelho, de 1871, mas inventa um arco de heroína com armadura e espada. É Carroll passado pelo liquidificador do épico de fantasia moderno.
11. Levou dois Oscar, e nenhum deles foi de efeitos
Apesar das críticas mornas, Alice faturou dois Oscar: Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino, esse último para a frequente colaboradora de Burton, Colleen Atwood. Foi indicado também a Melhores Efeitos Visuais, mas perdeu. No BAFTA, levou Figurino e Maquiagem e Cabelo. Ou seja: o que a Academia premiou foi o visual artesanal, não o CGI que dominou as telas verdes.
12. Animadores foram a um abrigo de coelhos abandonados
Para acertar o Coelho Branco, a equipe de animação passou um dia inteiro num abrigo de coelhos abandonados. Observaram, fotografaram e filmaram os bichos mastigando e mexendo o nariz, só para capturar essas nuances no personagem digital. É o tipo de obsessão de referência que separa CGI convincente de CGI plástico. O orçamento gigante do filme, estimado entre 150 e 200 milhões de dólares, bancava esse nível de detalhe.
13. Christopher Lee disse só duas falas como o Jaguadarte
O monstro Jaguadarte é dublado por Christopher Lee, lenda do terror britânico, em apenas duas falas. Burton precisou convencer o ator a usar a própria voz grave em vez de fazer o resmungo de criatura que Lee imaginava. O elenco de vozes é um desfile de talentos: Alan Rickman como a Lagarta Absolem, Stephen Fry como o Gato de Cheshire, Michael Sheen como o Coelho Branco e Barbara Windsor como o Caxinguelê.
14. Quebrou três recordes de estreia de uma só vez
O fim de semana de abertura de Alice pulverizou marcas: maior estreia de março, maior estreia da primavera americana e maior estreia de um filme que não era continuação, batendo o Homem-Aranha de 2002. Ainda cravou a maior abertura IMAX até então, com 12,2 milhões em 188 telas. Recordes que só cairiam depois, com Jogos Vorazes e Os Vingadores.

15. O cabelo laranja do Chapeleiro é mercúrio puro
Nada no visual do Chapeleiro é gratuito. O cabelo laranja-fogo referencia diretamente o envenenamento por mercúrio que afligia os chapeleiros do século 19, o feltro era tratado com mercúrio, que manchava a pele e fritava o cérebro. Depp levou a lógica ao extremo: imaginou que o corpo inteiro do personagem, não só a mente, estaria contaminado. Por isso a pele pálida, os dedos manchados e os olhos esbugalhados. É química transformada em figurino.
16. Os nomes das rainhas escondem trocadilhos
Burton e a roteirista Linda Woolverton plantaram piadas nos nomes. Iracebeth, a Rainha Vermelha de Helena Bonham Carter, brinca com a palavra inglesa irascible, irascível, explosiva, exatamente o temperamento da personagem. O Chapeleiro ganhou sobrenome próprio, Tarrant Hightopp, num aceno ao chapéu alto que carrega. São detalhes que só o espectador atento captura, mas que mostram o cuidado de mitologia por trás do roteiro.
17. O filme rendeu mais em produtos do que em ingressos
A bilheteria de 1 bilhão foi só parte do negócio. Alice impulsionou cerca de 1,6 bilhão de dólares em vendas no varejo para a Disney, somando home video e merchandising. O filme também é creditado por abrir as comportas de uma tendência: depois dele, Hollywood passou a aprovar adaptações live-action de contos de fadas e fantasia em série. O caixa falou mais alto que as resenhas.
18. O poema Jaguadarte virou o clímax do filme
O monstro que Alice enfrenta na batalha final é o Jabberwock, tirado do poema sem sentido “Jabberwocky”, que Carroll publicou em Através do Espelho. Burton transformou versos de pura sonoridade em criatura dragão de carne e osso digital. A própria “Frabjous Day”, o dia profetizado no filme, vem de uma palavra inventada por Carroll no mesmo poema. Poucas adaptações puxam tanto do nonsense linguístico do autor.
19. Mary Blair pintou a alma da animação de 1951
O visual modernista e colorido do clássico animado de 1951 não saiu do nada: veio das aquarelas conceituais de Mary Blair, artista cujo traço encantou Walt Disney a ponto de reescreverem o roteiro em volta da estética dela, focando na comédia, na música e no lado lúdico. Blair definiu a paleta vibrante de cenas como a da Morsa e o Carpinteiro. É um caso raro em que a direção de arte ditou a narrativa, e não o contrário.
20. A animação de 1951 tem mais músicas que qualquer Disney
O clássico de 1951 detém um recorde curioso: foram escritas mais de 30 músicas potenciais, e muitas entraram no filme, algumas por poucos segundos. É o maior número de canções de qualquer longa Disney. A canção-título, de Sammy Fain e Bob Hilliard, virou padrão de jazz. Tanta música ajudou a dar o ritmo frenético e episódico que o filme tem, pulando de cena em cena como num sonho.
21. Disney filmou Alice em carne e osso só para os animadores copiarem
A produção do clássico de 1951 começou em 1946 e levou cinco anos, custando cerca de 3 milhões de dólares. Parte do dinheiro foi numa estratégia incomum: a Disney rodou um filme live-action completo só para os animadores consultarem enquanto desenhavam quadro a quadro. Walt já namorava a história desde os anos 1920, no estúdio Laugh-O-Gram, e chegou a cogitar uma versão com Mary Pickford nos anos 1930.

22. O clássico de 1951 foi um fracasso que ressuscitou nos anos 70
Hoje é cânone, mas em 1951 Alice no País das Maravilhas decepcionou: arrecadou só 2,4 milhões de dólares no mercado doméstico, contra um custo de 3 milhões. Walt Disney culpou a “falta de coração”. O filme nunca foi relançado nos cinemas em vida do criador, só passava na TV. Virou cult entre universitários nos anos 1970 e ganhou relançamento oficial em 1974, aí sim um sucesso, rendendo 3,5 milhões em aluguéis.
23. A voz de Alice em 1951 também era a Wendy de Peter Pan
Kathryn Beaumont, que dublou Alice no clássico de 1951, emprestaria a voz a outra heroína Disney logo depois: Wendy, em Peter Pan, de 1953. O Gato de Cheshire, por sua vez, ganhou a voz arrastada e inconfundível de Sterling Holloway, o mesmo timbre que anos depois seria o Ursinho Pooh. Era o estúdio reciclando seu melhor talento de voz num intervalo de poucos anos.
24. Burton não dirigiu a sequência de 2016
Apesar do bilhão de dólares, Tim Burton recusou a cadeira de diretor de Alice Através do Espelho, de 2016. Ficou só como produtor e passou o bastão a James Bobin, o cara dos filmes dos Muppets. A roteirista Linda Woolverton voltou, assim como Colleen Atwood no figurino e Danny Elfman na trilha. Quase toda a equipe do primeiro retornou, menos quem mais importava na cadeira de comando.
25. A sequência custou 170 milhões e foi um fracasso
Alice Através do Espelho mostrou que um bilhão não se repete por decreto. Com orçamento de 170 milhões de dólares, menor que os 200 milhões do primeiro, a continuação de 2016 arrecadou apenas cerca de 299 milhões no mundo e entrou para a lista de fracassos de bilheteria do ano. O elenco principal voltou, incluindo Mia Wasikowska, Johnny Depp e Helena Bonham Carter, e a novidade foi Sacha Baron Cohen como o vilão Tempo.
26. Uma parceria de sete filmes entre Burton e Depp
Alice no País das Maravilhas marcou a sétima colaboração de Johnny Depp com Tim Burton, contando desde Edward Mãos de Tesoura, de 1990. A dupla é uma das mais consistentes de Hollywood, passando por Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e Sweeney Todd. O Chapeleiro de Depp encaixa-se perfeitamente na galeria de excêntricos pálidos e melancólicos que o ator construiu sob a direção do amigo de longa data.
Alice no País das Maravilhas em números
De fracasso animado a fenômeno bilionário, as versões de Alice acumulam marcos impressionantes. Os destaques:
- US$ 1,025 bilhão — bilheteria mundial do filme de Tim Burton (2010)
- 90% em tela verde — rodados em apenas 40 dias de filmagem
- 2 Oscar — Direção de Arte e Figurino, no Academy Awards de 2011
- US$ 3 milhões — custo do clássico animado de 1951, que fracassou na estreia
- 5 anos — tempo de produção da animação de 1951
- US$ 170 milhões — orçamento da sequência de 2016, que rendeu só US$ 299 mi
Mais de 150 anos depois dos livros de Lewis Carroll, Alice continua escorregando para baixo da terra e arrastando o público junto. Cada versão reinventa o País das Maravilhas a seu modo, do traço modernista de 1951 ao bilhão digital de Burton. E, como bom sonho de Carroll, sempre sobra algum segredo escondido entre uma cena e outra.