Parece comédia romântica leve, mas Amores Materialistas é um drama afiado sobre amor virar planilha de mercado. Por trás do triângulo entre Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans existe uma história real, um trabalho inusitado da diretora e uma fileira de decisões de bastidor que explicam por que o filme dividiu plateia e crítica. Reunimos os segredos por trás do segundo longa de Celine Song.
O que está por trás do romance mais cínico e sincero do ano
De cavernas pré-históricas a casamentos no México, passando por uma diretora que já foi casamenteira de verdade, a produção é tão cheia de camadas quanto o roteiro. A seguir, 21 curiosidades verificadas sobre o filme.
1. A diretora foi casamenteira de verdade em Nova York
Lucy, a protagonista, não saiu da imaginação. Celine Song foi casamenteira de verdade. Como dramaturga em início de carreira em Nova York, ela conheceu uma matchmaker numa festa e se candidatou à vaga, já que não tinha experiência para ser barista ou trabalhar no varejo. Ficou cerca de seis meses no cargo e disse ter aprendido mais sobre seres humanos nesse período do que em qualquer outra fase da vida. Foi ali que viu de perto as listas de exigências dos clientes, com altura, peso, renda e idade.
2. O almoço que fez Song escalar Dakota Johnson na hora
Dakota Johnson não fez teste tradicional. Song a chamou para um almoço para conversar sobre amor e vida e, logo depois, mandou mensagem para a A24 e os produtores: “Acho que a Dakota é a Lucy”. A diretora se encantou com o humor da atriz e a descreveu como alguém com “uma casca para se proteger” e uma alma profunda por dentro, “delicada como um ovo”. O elenco nasceu de uma conversa, não de uma audição.
3. Por que o filme começa numa caverna pré-histórica?
Antes de qualquer Nova York, antes de qualquer planilha de pretendentes, o filme abre num cenário pré-histórico. Um homem torce o talo de uma pequena flor branca e faz um anel para colocar no dedo da mulher. Celine Song explicou: a cena estabelece que rituais românticos não são modernos nem arbitrários, são antigos como a espécie. O anel de flor é o ancestral direto do anel de diamante, o material e o efêmero lado a lado.
4. O primeiro indie de 2025 a cruzar US$ 100 milhões
Amores Materialistas virou o primeiro filme independente de 2025 a passar dos US$ 100 milhões na bilheteria global, chegando a US$ 101,3 milhões. Foram US$ 36,5 milhões nos EUA e Canadá e US$ 64,8 milhões no exterior. Para um drama romântico de US$ 20 milhões, é um retorno e tanto. Mais relevante: superou os US$ 42 milhões globais de Vidas Passadas, mostrando que Song deixou de ser promessa para virar marca comercial.
5. Pedro Pascal foi o único que Song já conhecia
Dos três protagonistas, Pedro Pascal foi o único que Celine Song já conhecia antes da escalação. Eles conversaram sobre a dificuldade e o mistério do amor numa festa, e ela então o convidou para ler o roteiro. A diretora valoriza a dualidade do ator: uma fachada mais dura com vulnerabilidade escondida embaixo, perfeita para o financista Harry. O trio que vira triângulo na tela foi montado por três conversas separadas, não por química testada em conjunto.
6. A pergunta que Song fazia aos clientes virou chave do filme
No trabalho real de casamenteira, Celine Song tinha um método que contrariava as planilhas dos clientes. Em vez de medir altura e salário, ela perguntava: “O que faz você se sentir amado?”. Era a tentativa de furar a superfície materialista e chegar à compatibilidade de verdade. Essa tensão entre métrica e afeto virou o motor do filme inteiro. Lucy enxerga clientes como um banqueiro avalia ativos, e o drama nasce quando o próprio coração dela se recusa a obedecer à planilha.
7. Filmado em Nova York, mas o casamento foi no México
A fotografia principal durou pouco mais de cinco semanas, de 29 de abril a 6 de junho de 2024. A maior parte rodou em Manhattan e no Brooklyn, passando por Sunset Park, Brooklyn Heights e o West Village, o coração geográfico da história. Mas tem uma pegadinha: a cena do casamento não foi filmada nos EUA. A produção levou a equipe até Durango, no México, para registrar o momento mais simbólico do filme do outro lado da fronteira.

8. Por que Chris Evans abriu mão do galã perfeito
Chris Evans, o Capitão América, aceitou ser o ex falido. No filme ele é John, ator de teatro durão, sem dinheiro, o oposto do partido perfeito. Song também o conheceu num almoço e se encantou com a humildade dele e seu “belo chip no ombro”. A diretora contou que tanto ela quanto Dakota se emocionavam por causa de “quão doce ele é como pessoa”. Escalar um símbolo de blockbuster para o pretendente economicamente “errado” é parte do jogo do filme.
9. A estrutura de dois casamentos que espelha a trama
Amores Materialistas é construído sobre dois casamentos, e eles não são decorativos. No primeiro, Harry e Lucy se conhecem na recepção do casamento do irmão dele, arranjado por ela, até que o ex John aparece como garçom. No segundo, já depois do término, Lucy e John invadem uma festa de casamento no interior de Nova York. A montagem desacelera de propósito nessa cena ao ar livre, embalada por “Skating in Central Park”, de Bill Evans.
10. A terceira maior estreia da história da A24
A estreia doméstica de US$ 12 milhões colocou o filme no terceiro maior lançamento da história da A24, atrás apenas de Guerra Civil, com US$ 25,5 milhões, e Hereditário, com US$ 13,5 milhões. E ele entrou para um clube ainda mais seleto: só o terceiro filme da A24 a ultrapassar US$ 100 milhões globais, depois de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e Guerra Civil. Para uma comédia romântica sem efeitos nem sustos, é estatística surpreendente.
11. As 24 referências que Song entregou ao montador
Para alinhar o tom, Celine Song deu ao montador Keith Fraase uma lista de 24 filmes que inspiraram Amores Materialistas, dominada por adaptações de Jane Austen. Fraase destacou Razão e Sensibilidade, de Ang Lee, como revelador, justamente por tratar de classe, dinheiro e a troca de bens. Ou seja, o filme se apresenta como comédia romântica moderna, mas tem DNA austeniano correndo nas veias. A obsessão dos personagens com renda e idade é a versão século 21 dos dotes dos romances ingleses.
12. A dupla técnica que veio inteira de Vidas Passadas
Song não trocou de time. O diretor de fotografia Shabier Kirchner e o montador Keith Fraase repetiram a dobradinha de Vidas Passadas. Fraase chegou a dizer que os dois filmes “conversam entre si”, e que sua regra de montagem foi cortar o mínimo possível para servir às atuações em vez das convenções de gênero. A continuidade de equipe explica por que os dois longas têm o mesmo olhar contido, a mesma respiração.
13. Crítica em festa, plateia de pé atrás
Os números de recepção contam uma história dividida. No Rotten Tomatoes o filme foi certificado fresco com nota alta da crítica, mas o público ficou mais reticente. E tem o dado mais revelador: o CinemaScore da estreia foi B-, nota baixa para uma comédia romântica. A explicação é quase poética: quem comprou ingresso esperando rom-com leve levou um drama amargo sobre amor como mercadoria. Song avisou que não veio só “para ser bonita e estar apaixonada”.
14. A trilha gravada entre Londres e a Cornualha
O compositor Daniel Pemberton assinou a trilha, e ela não nasceu num estúdio qualquer. As gravações aconteceram no Angel Recording Studios, em Londres, e no Zennor Sounds, na Cornualha, litoral remoto do sudoeste inglês. Curioso pensar que um filme tão cravado em Nova York teve sua espinha sonora moldada na costa inglesa. Pemberton teve que equilibrar o cinismo do mercado de namoros com a ternura escondida sob ele, costurando essas duas temperaturas o tempo todo.

15. O orçamento que a A24 confiou a um segundo filme
Vinte milhões de dólares. Esse foi o orçamento que a A24 bancou para o segundo longa de Celine Song, produzido pela 2AM e pela Killer Films, com distribuição internacional da Sony. Não é pouco para um drama romântico autoral. A aposta veio na esteira de Vidas Passadas, que custou bem menos e rendeu duas indicações ao Oscar. Confiança rara num projeto sem franquia, sem super-herói, movido a triângulo amoroso e conversa sobre dinheiro.
16. O irmão temático de Vidas Passadas
Amores Materialistas é o segundo longa de Celine Song, e ela mesma o trata como par de Vidas Passadas. Os dois giram em torno de um triângulo amoroso e da tensão entre o amor possível e o amor idealizado. Vidas Passadas tratava de amigos de infância reencontrando sentimentos; aqui, a casamenteira fica entre o ex falido e o partido rico. O montador que cortou os dois disse que eles “conversam entre si”. Não é sequência, é continuação temática.
17. A peça que ela escreveu antes de virar casamenteira
Antes do emprego que inspirou o filme, Song escreveu a peça Tom & Eliza, e a cronologia é curiosa: ela a finalizou bem na véspera de começar a trabalhar como casamenteira. A peça dura cerca de 50 minutos e mostra duas pessoas do primeiro encontro até morrerem juntas, tema que ressoa diretamente em Amores Materialistas. Ou seja, a obsessão de Song por amor de longo prazo já estava lá antes do trabalho real. O emprego não plantou a semente, regou uma que já existia.
18. O Oscar que separa os dois filmes da diretora
A trajetória de Celine Song mudou de patamar entre um filme e outro. Vidas Passadas, sua estreia de 2023, rendeu duas indicações ao Oscar, incluindo Melhor Roteiro Original, e aprovação altíssima da crítica. Amores Materialistas não repetiu o fervor de premiação, mas fez algo que a estreia não tinha feito: bateu Vidas Passadas na bilheteria global. Em dois longas, Song virou diretora cortejada pela crítica e pela bilheteria ao mesmo tempo.
19. O casamento real da diretora com o roteirista de Challengers
A cena final, num casamento de cartório, saiu da vida da própria Celine Song. Ela se inspirou na cerimônia civil do próprio casamento com o marido, Justin Kuritzkes, que assina o roteiro de Challengers. Detalhe saboroso: os dois são cônjuges roteiristas que, no mesmo período, entregaram dois dos filmes mais comentados sobre desejo e relação. Enquanto ele dissecava um triângulo no tênis, ela dissecava outro no mercado de namoros de Nova York.

20. A obsessão com métricas que veio direto da vida real
As listas de exigências que aparecem no filme, com altura, peso, renda e idade, não são exagero de roteiro. Song encontrava exatamente isso nos clientes reais quando trabalhava como casamenteira. Os pedidos vinham frios, como especificações de um produto. O filme transforma esse choque pessoal em comédia amarga: gente tratando o amor como compra de imóvel, listando requisitos antes de sentir qualquer coisa. A diretora viveu de perto o cinismo que depois levou à tela.
21. Onde assistir no Brasil
No Brasil, Amores Materialistas chegou às plataformas digitais em setembro de 2025, disponível para alugar ou comprar em Apple TV, Google Play e YouTube. Depois desembarcou na HBO Max, onde está incluso na assinatura, e também aparece no Prime Video. Então, se você perdeu na sala de cinema, hoje tem caminho fácil. Vale o aviso de sempre: catálogos de streaming mudam, então confira a disponibilidade atual antes de programar a sessão.
Amores Materialistas em números
O segundo filme de Celine Song provou que romance autoral pode dar lucro de verão. Os marcos:
- US$ 20 milhões — orçamento do filme, bancado pela A24 e Sony
- US$ 101,3 milhões — bilheteria mundial, primeiro indie de 2025 a passar de US$ 100 mi
- US$ 12 milhões — estreia doméstica, a 3ª maior da história da A24
- Cerca de 6 meses — tempo que Song trabalhou como casamenteira de verdade
- 24 filmes — referências entregues ao montador, muitas adaptações de Jane Austen
- 5 semanas — duração da filmagem principal, em 2024
No fim, Amores Materialistas é menos sobre quem fica com quem e mais sobre o preço que colocamos no afeto. Celine Song pegou a própria experiência num emprego improvável e transformou numa das discussões mais honestas do cinema recente sobre amor e dinheiro. E fez isso lucrando alto, ironia que combina perfeitamente com o tema.