O Poderoso Chefão (1972), dirigido por Francis Ford Coppola, é considerado um dos maiores filmes da história do cinema e transformou o elenco em lendas de Hollywood. Da escalação improvável de Al Pacino à recusa histórica de Marlon Brando ao Oscar, veja quem são os atores por trás da família Corleone, seus personagens e o que aconteceu com cada um deles depois do filme.
Elenco principal
Marlon Brando: Don Vito Corleone

Marlon Brando viveu Don Vito Corleone, o patriarca que comanda a família Corleone e, ao longo do filme, cede gradualmente o poder ao filho Michael. Ele é a figura moral (dentro da lógica do próprio crime organizado) que dá início a toda a trama.
No começo dos anos 1970, Brando vivia um momento de baixa, apesar de ter sido um dos maiores nomes do cinema nos anos 1950, com filmes como Um Bonde Chamado Desejo. A Paramount resistia em contratá-lo e só cedeu depois que Coppola insistiu num teste.
Nesse teste, o próprio Brando criou, na hora, o detalhe que ficaria icônico: colocou bolas de algodão na boca para simular bochechas inchadas, além de graxa no cabelo e uma voz rouca e sibilante.
Ele venceu o Oscar de Melhor Ator em 1973, mas recusou o prêmio: enviou ao palco a ativista indígena Sacheen Littlefeather para ler um protesto contra a forma como Hollywood representava os povos nativos, gesto que dividiu a plateia na hora.
Al Pacino: Michael Corleone

Al Pacino interpretou Michael Corleone, o filho caçula que tenta ficar à margem dos negócios da família e acaba se tornando o novo chefão depois que Vito sofre um atentado.
Antes do filme, Pacino era sobretudo um ator de teatro, pouco conhecido no cinema. A Paramount não o queria: os executivos preferiam nomes como Jack Nicholson, Robert Redford ou Warren Beatty, e chegaram a achá-lo baixo demais para o papel.
O teste de tela inicial de Pacino foi considerado fraco. O que mudou o jogo foi a cena do restaurante, o assassinato de Sollozzo e do capitão McCluskey, exibida ao chairman da Gulf+Western, dona da Paramount, que se convenceu ao ver aquele momento.
Depois de 1972, Pacino se consolidou como um dos maiores atores de sua geração. Repetiu o papel de Michael em Poderoso Chefão Parte II (1974) e Parte III (1990), construindo uma das trajetórias mais respeitadas do cinema americano.
James Caan: Sonny Corleone

James Caan deu vida a Sonny Corleone, o filho mais velho, impulsivo e violento, que seria o herdeiro natural do comando da família até ser assassinado num posto de pedágio.
Antes do filme, Caan já tinha trabalhado com Coppola em The Rain People (1969) e havia sido indicado ao Emmy por Brian’s Song (1971), um trabalho de TV que chamou atenção da crítica.
A cena de sua morte usou cerca de 147 cargas de efeito de tiro no corpo do ator e mais de 200 no carro, sendo a sequência mais cara de preparar em todo o filme, filmada numa única tomada com várias câmeras.
Caan foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante. Depois, fez Rollerball (1975) e Thief (1981), mas parou de atuar entre 1982 e 1987 por causa de depressão e dependência química, retomando a carreira a convite do próprio Coppola em Gardens of Stone (1987).
Robert Duvall: Tom Hagen

Robert Duvall interpretou Tom Hagen, o advogado e consigliere da família Corleone, criado por Vito como se fosse um filho e o principal conselheiro nos momentos de crise.
Antes de 1972, Duvall já tinha uma carreira sólida como coadjuvante: viveu Boo Radley em O Sol É Para Todos (1962), participou de Bullitt (1968), Bravura Indômita (1969) e M*A*S*H (1970), além de THX 1138 (1971), primeiro longa de George Lucas.
O papel lhe rendeu indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, e Duvall repetiu o personagem em Parte II (1974). A crítica passou a chamá-lo de o melhor “segundo protagonista” de Hollywood.
Depois, ele conquistou o Oscar de Melhor Ator por Tender Mercies (1983) e ainda somou indicações por Apocalypse Now (1979) e The Great Santini (1979), consolidando uma das carreiras mais longevas do cinema americano.
Richard S. Castellano: Peter Clemenza

Richard S. Castellano viveu Peter Clemenza, o caporegime leal a Vito Corleone e figura quase paterna dentro da família, autor da frase que ficou famosa: “deixa a arma, pega o cannoli”.
Antes do filme, Castellano já era um ator de teatro e TV nova-iorquino respeitado, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Lovers and Other Strangers (1970).
Foi, na verdade, o ator mais bem pago da produção original: recebeu 50 mil dólares por doze semanas de trabalho, valor superior ao que Al Pacino ganhou no mesmo filme.
Castellano não retornou em Poderoso Chefão Parte II. Segundo relatos da época, ele exigiu aprovar as falas de Clemenza no roteiro da sequência, e Coppola cita divergências sobre esse controle criativo. O impasse tirou o personagem da continuação, substituído por Frank Pentangeli.
Diane Keaton: Kay Adams

Diane Keaton interpretou Kay Adams, namorada e depois esposa de Michael Corleone, o único ponto de vista de fora da família mafiosa dentro da trama.
Antes do filme, ela vinha do teatro: fez parte do elenco do musical Hair na Broadway em 1968 e foi indicada ao Tony por Play It Again, Sam (1969), peça de Woody Allen. Estreou no cinema em Lovers and Other Strangers (1970), o mesmo filme que rendeu indicação ao Oscar a Castellano.
A Paramount não gostou do teste de tela de Keaton e temia que ela não se sustentasse num elenco predominantemente masculino. Coppola insistiu até o estúdio ceder, e revelou depois ter se inspirado na personalidade de sua própria esposa, Eleanor Coppola, para moldar Kay.
Depois de 1972, Keaton se tornou parceira recorrente de Woody Allen em Sleeper (1973), Amor e Morte (1975) e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), papel que lhe deu o Oscar de Melhor Atriz.
Talia Shire: Connie Corleone Rizzi

Talia Shire viveu Connie Corleone Rizzi, a irmã mais nova de Michael, casada com o abusivo Carlo Rizzi, num dos arcos mais dolorosos do filme.
Ela é irmã do diretor Francis Ford Coppola, nascida Talia Rose Coppola, e foi creditada pela primeira vez como Talia Shire justamente neste longa. O próprio irmão resistiu a escalá-la, achando-a atraente demais para o papel de Connie, mas o teste dela convenceu os executivos da Paramount.
Antes do filme, Shire tinha uma carreira ainda modesta no cinema, com poucos papéis de destaque.
Depois de 1972, recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pela continuação, Poderoso Chefão Parte II (1974), e outra indicação a Melhor Atriz por Rocky (1976), vivendo Adrian ao lado de Sylvester Stallone.
Gianni Russo: Carlo Rizzi

Gianni Russo interpretou Carlo Rizzi, marido de Connie e cunhado desprezado por Michael, que acaba traindo a família e sendo executado por ordem do novo chefão.
Diferente do restante do elenco, Russo não tinha experiência prévia como ator. Cresceu na Little Italy, ligado ao mafioso Frank Costello, e teria atuado como uma espécie de mensageiro para o chefão de Nova Orleans Carlos Marcello, segundo relatos posteriores dele mesmo.
Ele leu sobre a produção do filme no Los Angeles Times, autofinanciou testes de tela (chegou a testar para Carlo, Michael e Sonny) e enviou o material por conta própria à Paramount. Foi escalado depois de um teste que encenava a briga entre Carlo e Connie.
Em 2019, Russo publicou o livro de memórias Hollywood Godfather: My Life in the Movies and the Mob, detalhando essa dupla vida entre Hollywood e o crime organizado real.
Sterling Hayden: Capitão McCluskey

Sterling Hayden interpretou o capitão de polícia corrupto McCluskey, aliado do traficante Sollozzo, morto por Michael Corleone na cena do restaurante que empurra o protagonista para dentro da guerra da família.
Antes do filme, Hayden já era ator de estúdio desde os anos 1940, apelidado de “o homem mais bonito do cinema”, e havia servido na Marinha e na OSS durante a Segunda Guerra, ajudando partisans na Iugoslávia. Estrelou também A Um Passo da Eternidade (The Asphalt Jungle, 1950).
Convocado pelo Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC) em 1951, Hayden testemunhou como “testemunha amigável” e delatou nomes de colegas, o que o livrou de uma lista negra mais severa, mas o acompanhou como remorso pelo resto da vida.
Depois, foi dirigido por Stanley Kubrick em The Killing (1956) e como o General Ripper em Dr. Fantástico (1964). Em sua autobiografia, escreveu ter sentido “desprezo por si mesmo” desde aquele depoimento ao HUAC.
John Marley: Jack Woltz

John Marley viveu Jack Woltz, o magnata de Hollywood que se recusa a dar um papel a Johnny Fontane e acorda com a cabeça decepada de seu cavalo de corrida premiado na própria cama.
Antes do filme, Marley (nascido Mortimer Leon Marlieb) construiu carreira de teatro e papéis pequenos, com um avanço tardio aos sessenta anos em Faces (1968), de John Cassavetes, que lhe rendeu a Copa Volpi de Melhor Ator em Veneza, além de indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro por Love Story (1970).
O detalhe de bastidor mais marcante é real: Coppola usou uma cabeça de cavalo verdadeira, vinda de um matadouro em Nova Jersey, sem avisar Marley com antecedência. O choque e o pavor na cena são reação genuína do ator, não atuação.
Depois de 1972, Marley seguiu trabalhando intensamente, somando quase 250 créditos ao longo da carreira, até morrer em 1984, após uma cirurgia cardíaca.
Richard Conte: Emilio Barzini

Richard Conte interpretou Emilio Barzini, o chefe mafioso rival que manda matar Sonny Corleone e é morto por Michael no desfecho do filme.
Antes de 1972, Conte era um ícone do film noir dos anos 1940 e 1950, com papéis marcantes em Chamada para o Norte 777, House of Strangers e The Big Combo, entre outros clássicos do gênero.
Curiosamente, ele chegou a ser cotado para viver o próprio Don Vito Corleone antes de Brando ser escolhido, acabando por interpretar o rival Barzini. Com o declínio do noir nos anos 1960, sua carreira havia estagnado, levando-o a trabalhar na Europa em westerns spaghetti.
O Poderoso Chefão marcou o pico comercial da carreira de Conte, já aos 62 anos. Ele morreu em 1975, poucos anos depois do lançamento.
Al Lettieri: Virgil Sollozzo

Al Lettieri deu vida a Virgil Sollozzo, “o Turco”, traficante de heroína siciliano que tenta assassinar Vito Corleone e propõe uma aliança de negócios à família.
Antes do filme, Lettieri era um ator ítalo-americano de Nova York, fluente em siciliano e italiano, atuando principalmente em papéis de vilão ao longo dos anos 1960.
Segundo o próprio Coppola, em comentários sobre o filme, a atuação de Lettieri ajudou a extrair a performance de um Al Pacino ainda estreante: sua fluência no dialeto siciliano deu autenticidade à tensa cena do restaurante italiano.
Ainda em 1972, Lettieri viveu o vilão Rudy Butler em A Fuga (The Getaway), de Sam Peckinpah, ao lado de Steve McQueen, o auge de sua carreira. Morreu de infarto em Nova York em 1975, aos 47 anos.
Abe Vigoda: Salvatore "Sal" Tessio

Abe Vigoda interpretou Salvatore “Sal” Tessio, capo de confiança da família Corleone que trai Michael no desfecho do filme, um dos golpes mais duros da trama.
Antes de 1972, Vigoda construiu carreira quase inteiramente no teatro, atuando desde os anos 1940 em produções da Broadway, praticamente desconhecido no cinema. Conseguiu o papel de Tessio por uma audição aberta para atores sem agente, segundo o próprio Coppola.
Depois do filme, consagrou-se na TV como o detetive Phil Fish em Barney Miller (1975 a 1982), personagem tão popular que ganhou um spin-off próprio, Fish (1977 a 1978).
Vigoda ficou famoso também por ser vítima repetida de anúncios falsos de sua morte: em 1982 a revista People o deu como morto por engano, e ele posou sentado num caixão segurando a revista para provar que estava vivo. Morreu de fato em 2016, aos 94 anos.
John Cazale: Fredo Corleone

John Cazale viveu Fredo Corleone, o irmão fraco e desleal de Michael, peça central no arco de traição que atravessa toda a saga Poderoso Chefão.
Antes de 1972, Cazale era ator de teatro em Boston e depois em Nova York, contracenando em peças com Al Pacino e Meryl Streep antes mesmo do cinema.
Cazale fez apenas cinco filmes em toda a carreira: Poderoso Chefão (1972), Poderoso Chefão Parte II (1974), A Conversação (1974), Um Dia de Cão (1975) e O Franco-Atirador (1978). Os cinco foram indicados a Melhor Filme no Oscar, sendo que três venceram a estatueta, um recorde único na história do cinema.
Ele namorou Meryl Streep, com quem contracenou em O Franco-Atirador. Diagnosticado com câncer de pulmão em 1977, insistiu em terminar suas cenas no filme antes de morrer, em 1978, aos 42 anos.
Elenco de apoio
| Ator | Personagem |
|---|---|
| Morgana King | Mama Corleone |
| Lenny Montana | Luca Brasi |
| John Martino | Paulie Gatto |
| Salvatore Corsitto | Bonasera |
| Al Martino | Johnny Fontane |
| Rudy Bond | Cuneo |