Sally Field e um polvo gigante. A premissa parece piada interna de festival, mas Remarkably Bright Creatures chegou ao catálogo da Netflix em 8 de maio de 2026 com 71% no Rotten Tomatoes e três reviews entusiasmadas que comparam o filme a um abraço quente. Por trás do título estranho está adaptação do best-seller homônimo de Shelby Van Pelt, romance de 2022 que vendeu mais de meio milhão de cópias só nos Estados Unidos.
A direção é de Olivia Newman, mesma de Where the Crawdads Sing, e o roteiro entrega uma fórmula sentimental que poderia descambar pra melodrama barato. Não desce. Por isso o filme funciona: a química entre a personagem de Sally Field e o polvo Marcellus — narrador da história, dublado por Alfred Molina — segura cada cena com elegância que adaptações literárias raramente acertam.
Tova, o aquário e o polvo que sabe demais
Tova Sullivan é viúva de meia-idade que trabalha como faxineira noturna no Sowell Bay Aquarium, pequeno parque marinho da costa do Pacífico Noroeste. Ela perdeu o filho Erik há 30 anos — desapareceu numa noite de verão, corpo nunca encontrado, polícia encerrou o caso como acidente. Tova nunca acreditou na versão oficial e construiu rotina de luto silencioso ao redor do aquário.

Marcellus, o polvo gigante do Pacífico que vive numa das atrações, é o único que parece notar. O bicho é narrador onisciente que comenta os erros humanos com ironia melancólica. Em paralelo, Cameron Cassmore (Lewis Pullman) chega à cidade procurando o pai biológico que nunca conheceu. Os três se cruzam, e o polvo percebe a conexão antes de qualquer humano. Funciona como dispositivo narrativo improvável que entrega cada virada com peso emocional.
Ficha técnica
| Título original | Remarkably Bright Creatures |
| Direção | Olivia Newman |
| Roteiro | Olivia Newman e John Whittington |
| Livro original | Remarkably Bright Creatures (Shelby Van Pelt, 2022) |
| Estreia Netflix | 8 de maio de 2026 |
| Onde assistir (Brasil) | Netflix |
| Duração | 111 minutos |
| Classificação | PG-13 |
| Gênero | Drama, comédia leve, adaptação literária |
| Rotten Tomatoes | 71% (críticos) |
Sally Field carregando o filme nos ombros
Aos 79 anos, Sally Field entrega performance que crítica unanimemente classifica como o motor do filme. ScreenRant deu 7/10 e justificou: “O elenco eleva um roteiro já forte, e a premissa de um polvo senciente narrando os eventos do filme dá ao filme uma forma docemente peculiar de se diferenciar de uma miríade de filmes similares.” A IndieWire concedeu B e foi mais generosa com a diretora — Kate Erbland escreveu que se trata de “uma adaptação livro-pra-filme que de fato adapta o material, em vez de copiar cegamente do original.”
Por outro lado, a What’s on Netflix entrega 3,5 estrelas de 5 e descreve o resultado como “surpresa emocional ressonante”. Trata-se de consenso que coloca o longa acima dos 70% no Rotten Tomatoes — patamar respeitável para drama familiar de catálogo, formato que costuma ter dificuldade com crítica especializada.

O elenco que eleva o roteiro
Lewis Pullman vive Cameron, o jovem músico errante que chega a Sowell Bay com três pertences: a kombi herdada da mãe morta de overdose, uma vaga lembrança do rosto do pai e teimosia de quem nunca pertenceu a lugar nenhum. Trata-se da chance do ator depois de Top Gun: Maverick e Outer Range. Em paralelo, Joan Chen (Janice Kim), Colm Meaney (Ethan Mack), Kathy Baker e Beth Grant compõem a comunidade do aquário, vizinhos que orbitam Tova com lealdade silenciosa de cidade pequena.
Sofia Black-D’Elia entrega Avery, ponto de leveza romântica para Cameron sem que o filme caia em subtrama batida. Chris William Martin é Simon Brinks, figura central do mistério em torno de Erik — sua revelação é uma das mudanças mais delicadas que o roteiro fez em relação ao livro de Van Pelt.
Sete mudanças do livro que o filme assume
- Irmão odiado da Tova foi cortado do filme — economia narrativa que aperta o foco em Marcellus
- Trauma do Cameron foi expandido — mãe morta de overdose ganhou peso, tornando a busca pelo pai menos romântica e mais urgente
- Marcellus tem mais cena — a diretora abriu espaço para o polvo respirar como personagem, não só como narrador
- Tova ganhou colapso emocional — no livro ela era mais contida; aqui a fragilidade aparece com Sally Field destruindo o estoicismo
- Nova cena no open mic do Cameron — momento de música que não existia na fonte e que serve como respiro de meio do filme
- Capítulo inteiro cortado — Olivia Newman explicou em entrevista por que removeu uma subtrama paralela do livro que considerava “ruído”
- Final mais explícito — a revelação sobre o pai do Cameron é entregue com mais clareza visual do que o livro apresentava
Em entrevista, Newman defendeu cada corte: “Adaptação não é fidelidade. É escolha.” Por isso o filme funciona — porque a diretora tratou o livro como ponto de partida, não como sagrado.
O ending que recompensa a paciência
O filme entrega resposta para a pergunta que Tova carrega há 30 anos. Cameron descobre, com ajuda do polvo e de um anel com inscrição “EELS” (Erik Ernest Lindgren Sullivan), que é neto de Tova — Erik teve um romance secreto antes de desaparecer, e o filho foi criado fora de Sowell Bay. Trata-se de revelação que o livro estende por capítulos e que o filme entrega de forma compacta.
Em paralelo, Marcellus chega ao fim do ciclo natural — polvos gigantes do Pacífico vivem entre 3 e 5 anos. Tova decide soltá-lo no oceano antes da morte natural. A cena final é catártica sem ser piegas. O bicho que sabia tudo se despede com elegância e o filme respeita a inteligência do espectador.
Disponível no Netflix
O filme entrou no catálogo brasileiro em 8 de maio de 2026, junto com The Chestnut Man e Legends. Legendas e dublagem em português confirmadas pelo Netflix. Trata-se de janela mundial — a estreia foi simultânea em todos os mercados Netflix.
Trailer
A pergunta que sobra depois dos 111 minutos não é sobre Tova nem sobre Cameron. É sobre o polvo. O bicho passa o filme inteiro vendo coisas que humanos não veem, comentando com ironia tudo que erramos. Talvez Marcellus tenha razão. Talvez sejamos exatamente isso — criaturas que passam a vida procurando o que sempre esteve do outro lado do vidro.