A nova série Homem em Chamas, da Netflix, fechou a primeira semana com 57% de aprovação dos críticos e 69% da audiência no Rotten Tomatoes. O número conta uma história clássica: público gostou mais do que a crítica, mas nenhum dos dois ficou empolgado.
Por outro lado, a aposta brasileira da plataforma já é evidente: Alice Braga é coprotagonista absoluta como Valeria Melo, e o ator de Bacurau, Thomás Aquino, integra o elenco principal como Prado Soares. Filmada na Cidade do México com ambientação no Rio de Janeiro, a série usa o submundo carioca como espinha dorsal narrativa.
Yahya Abdul-Mateen II carrega o peso de Creasy

O ator de Aquaman e Watchmen assume John Creasy — ex-mercenário das Forças Especiais com transtorno de estresse pós-traumático que vira guarda-costas de uma adolescente. É o mesmo arco do livro de A.J. Quinnell e do filme de 2004 com Denzel Washington, mas com 7 episódios para respirar. Sobra espaço, e nem sempre o roteiro sabe usar.
Trata-se de adaptação que leva a sério o trauma do personagem, mas hesita na ação. A crítica reincidente é que a série tem medo de empurrar Creasy para os limites psicológicos que sustentavam o filme original. Yahya entrega quando o roteiro deixa — e várias vezes não deixa.
Alice Braga ancora a parte brasileira
Valeria Melo é o elo entre Creasy e o submundo do Rio. Alice Braga, vista em Cidade de Deus, Eu Sou a Lenda e na série Queen of the South, assume um papel que não existia no livro original — criação dos roteiristas para amarrar a ambientação carioca da série.
De fato, a presença de Braga é o que ancora a série culturalmente. Em paralelo, Thomás Aquino, indicado ao Cannes por Bacurau, faz o brasileiro Prado Soares — papel pequeno mas estratégico, que conecta Creasy à rede criminosa local. Dois nomes brasileiros num projeto de prestígio Netflix com produção americana é movimento raro, e a plataforma claramente quer crédito pelo casting.
O que a crítica especializada disse
Os números do Rotten Tomatoes:
- 57% aprovação dos críticos (sobre 21-23 reviews)
- 69% aprovação da audiência
- 61/100 no Metacritic (“generally favorable”)
Em paralelo, as resenhas pesadas dividiram entre quem viu uma adaptação cuidadosa e quem viu um desperdício de talento. A IndieWire foi seca: a série “desperdiça o talento do protagonista”. O Hollywood Reporter chamou de “visão estranhamente otimista, mas decepcionantemente sem graça”. O Roger Ebert resumiu: “a adaptação Netflix não consegue manter o calor.
Por outro lado, The Playlist destacou a construção de suspense (“o suspense é construído com diligência em cada episódio”) e TV Cave defendeu Yahya Abdul-Mateen II como cativante, ainda que limitado pelo roteiro. Recepção mista, em resumo — não é bomba, mas não é fenômeno.
O ponteiro do Rio
A escolha de transformar o Rio em palco da série é decisão deliberada. A versão de 2004 com Denzel Washington passou no México. A nova série Netflix mantém parte da ambientação latino-americana mas troca o cenário central. Por isso, o público brasileiro tem motivo extra para acompanhar — embora as filmagens reais tenham ocorrido na Cidade do México por questões logísticas, a iconografia visual é carioca: morros, favelas, praia, cobertura sobre baía.
Trata-se de aposta que entra em diálogo com séries como 3%, O Mecanismo e Sintonia — produções Netflix que usaram o Brasil como cenário com graus diferentes de sucesso. A diferença aqui é que o produto chega importado, com elenco internacional, e usa o Brasil como pano de fundo, não como motor.
Vale assistir mesmo com 57% no Rotten Tomatoes?
Para quem esperava a intensidade do filme de Tony Scott, provavelmente não. Para quem assiste para ver Yahya Abdul-Mateen II e Alice Braga em projeto de prestígio, vale. A série tem ritmo desigual — primeira metade arrasta, segunda acelera —, mas a fotografia é caprichada e a química entre os dois protagonistas funciona desde o primeiro episódio.
Além disso, o conselho que Yahya recebeu de Denzel Washington antes de aceitar o papel virou citação famosa nos bastidores. Detalhe nostálgico que serve de gancho promocional, mas que também marca a passagem de bastão simbólica entre as duas adaptações.
No catálogo do Netflix
Os 7 episódios estão disponíveis na Netflix Brasil desde 30 de abril, com legendas em português e dublagem completa. A janela é simultânea ao lançamento global — sem atraso.
Por fim, fica uma pergunta editorial: a Netflix vai renovar para uma segunda temporada apesar dos 57% no Rotten Tomatoes? A plataforma raramente cancela séries com audiência acima de 65% no público, e Homem em Chamas passou desse limite. A renovação parece provável, mas a forma final ainda está em discussão. O segundo semestre de 2026 deve trazer o anúncio.