Como a Coisa quase saiu irreconhecível no cinema

Por Rafael Duarte 02/07/2026 às 21:51 5 min de leitura
Como a Coisa quase saiu irreconhecível no cinema
5 min de leitura

O concept art da Coisa em um reboot cancelado de Quarteto Fantástico reapareceu pelas mãos de Jerad S. Marantz. O material mostra Ben Grimm em versões bem diferentes, do brutamontes clássico a um monstro rochoso quase irreconhecível, e reacende uma discussão antiga: quanto mais “real” ele fica, menos Coisa ele parece.

Resumo rápido

  • Jerad S. Marantz divulgou artes de um reboot da Fox nunca produzido
  • As imagens testam Coisa magro, massivo, barrigudo e mais agressivo
  • O post oficial do artista está acessível no Brasil pelo Instagram

Não é fan art. Esse detalhe importa. Marantz é artista de desenvolvimento visual e o que apareceu agora faz parte de um projeto real da era Fox, naquela fase bagunçada entre os filmes de 2005 e o reboot de 2015.

O que essas artes mostram

Basta bater o olho para entender a ideia. As artes testam várias proporções para a Coisa: uma versão mais musculosa, outra mais seca, uma com barriga saliente e algumas com placas rochosas muito mais agressivas.

Tem também uma linha visual com pedras cinzas arredondadas, mais próxima do desenho clássico. Em outras, o corpo parece quase ósseo. Ombros pontudos, braços enormes e um rosto menos simpático. Ben Grimm vira criatura primeiro, personagem depois.

Esse é o centro da questão. A Coisa sempre funciona melhor quando o design segura duas pontas ao mesmo tempo: força bruta e humanidade. Se uma delas cai, o personagem desmonta.

Nas artes descartadas, dá para ver essa briga acontecendo em tempo real. Algumas versões ainda deixam espaço para expressão facial. Outras parecem feitas para intimidar, não para conversar. Para um vilão, funciona. Para Ben Grimm, complica.

O reboot da Fox que nunca saiu do papel

O projeto em si continua nebuloso. Não há um título formal ligado a esse material, só a certeza de que ele pertence a um reboot de Quarteto Fantástico desenvolvido no fim dos anos 2000, quando a Fox tentava achar uma nova direção para a equipe.

Foi uma fase de muito desenvolvimento e pouca execução. Ideias circularam, versões de roteiro também, mas quase nada virou anúncio sólido. Por isso essas artes têm valor de arquivo: elas mostram um caminho que existiu de verdade, mesmo sem ter chegado ao set.

E tem mais um detalhe curioso. O material não aponta para um visual fechado. Parece teste de linguagem. Estavam tentando descobrir se a Coisa deveria ser um herói grandalhão com textura de pedra ou um monstro rochoso que, por acaso, ainda atende pelo nome de Ben.

Por que a Coisa sempre dá trabalho no cinema

Poucos personagens da Marvel são tão difíceis de adaptar. A Coisa precisa ser massiva, expressiva, simpática e ameaçadora ao mesmo tempo. Parece simples no papel. Em live-action, é um pesadelo técnico.

Se o filme pesa demais no realismo, o personagem fica estranho. Se pesa demais no lado cartunesco, perde impacto. E ainda existe o problema físico: prótese limita expressão, CGI puro às vezes tira peso, e o meio-termo raramente acerta de primeira.

Não por acaso, as versões em cinema sempre dividiram opinião. Uma ficou leve demais. Outra foi dura e grotesca demais. O concept art recém-revelado mostra justamente esse cabo de guerra.

Filme ou projeto Como a Coisa aparece Leitura geral
Quarteto Fantástico (2005) Visual com próteses e pegada mais cartunesca Mais leve e mais próximo do herói clássico
Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007) Mantém a mesma base visual do filme anterior Continuidade sem grande reinvenção
Reboot cancelado da Fox Varia entre formas arredondadas, agressivas e monstruosas Busca por identidade que nunca fechou
Quarteto Fantástico (2015) Pedras irregulares, aparência mais agressiva, sem roupas Versão mais sombria e menos carismática
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos Ben Grimm vivido por Ebon Moss-Bachrach Referência atual na conversa sobre fidelidade visual

O clássico de Jack Kirby ainda parece a melhor saída

A parte mais interessante dessas artes não é nostalgia. É o diagnóstico. Quando a Coisa tenta parecer biologicamente plausível demais, o personagem perde exatamente o que o torna memorável nos quadrinhos.

Jack Kirby desenhou a Coisa como um ícone, não como um exercício de anatomia de pedra. Corpo enorme, rosto legível, silhueta instantânea. Exagero assumido. O cinema vive esbarrando nisso porque insiste em justificar demais um conceito que já funciona no absurdo.

O reboot de 2015 foi pelo caminho mais áspero. O resultado dividiu muita gente. Já a leitura mais recente de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, com Ebon Moss-Bachrach como Ben Grimm, recolocou o lado clássico no centro da conversa, mesmo que a discussão sobre “qual é a versão definitiva” continue aberta.

As artes estão no Instagram do artista e dá para ver do Brasil

Quem quiser conferir o material original pode ver o post no Instagram oficial de Jerad S. Marantz. O acesso funciona normalmente no Brasil, sem bloqueio regional, e é ali que está o valor real da descoberta: observar um personagem famoso ainda em estado de tentativa.

No fim, essas imagens servem menos como “o que perdemos” e mais como prova de um problema que Hollywood levou anos para entender. A Coisa não precisa parecer possível. Precisa parecer a Coisa. E fica a dúvida: se a Fox tivesse ido até o fim com esse visual mais monstruoso, alguém compraria Ben Grimm desse jeito?

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