Bugonia é o sci-fi mais estranho de Lanthimos?

Por Leandro Lopes 17/05/2026 às 16:30 5 min de leitura
Bugonia é o sci-fi mais estranho de Lanthimos?
5 min de leitura

Bugonia, novo filme de Yorgos Lanthimos com Emma Stone e Jesse Plemons, chegou cercado por uma etiqueta forte: 87% no Rotten Tomatoes. O número chama atenção, mas o que realmente interessa é outro detalhe: esse thriller de ficção científica parece juntar o humor mais cruel do diretor com uma premissa que já nasce torta.

E torta aqui é elogio.

Ficha técnica Detalhes
Título original Bugonia
Título no Brasil Bugonia
Tipo Filme
Direção Yorgos Lanthimos
Roteiro Will Tracy
Elenco principal Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis
Personagens Michelle Fuller, Teddy e Don
Baseado em Save the Green Planet! (2003), de Jang Joon-hwan
Gênero Thriller de ficção científica, comédia sombria
Distribuição Focus Features
Produção associada Element Pictures e parceiros
Nota no Rotten Tomatoes 87% no momento da publicação

O sequestro é só a superfície

A história gira em torno de Teddy, vivido por Jesse Plemons. Ele é um conspiracionista que acredita que a CEO Michelle Fuller, personagem de Emma Stone, é uma alienígena infiltrada.

Não satisfeito, ele recruta o primo Don e sequestra Michelle. A ideia é mantê-la presa no porão até arrancar uma confissão extraterrestre. Só isso já bastaria para vender o filme.

Mas será que ela é mesmo uma alienígena? É aí que Bugonia parece acertar em cheio. O suspense não nasce de explosão ou perseguição. Nasce da dúvida.

Emma Stone, careca, senta em frente a uma luz independente em Bugonia
Emma Stone, careca, senta em frente a uma luz independente em Bugonia (Reprodução)

Esse tipo de premissa combina muito com Lanthimos. O diretor sempre gostou de pegar uma ideia absurda e tratar como se fosse regra social. Em O Lagosta (The Lobster), fez isso com relacionamentos. Agora faz com paranoia.

Lanthimos volta ao terreno que combina com ele

Tem diretor que funciona melhor no realismo. Lanthimos não. Quando entra no estranho, ele cresce.

Bugonia parece mais próximo do nervo de O Lagosta e Dente Canino do que do romantismo deformado de Pobres Criaturas (Poor Things). Menos fantasia expansiva. Mais desconforto seco, de sala fechada.

Isso importa porque o material original já pedia esse olhar. Save the Green Planet! é cult justamente por misturar gêneros sem pedir licença. Comédia, delírio, violência e ficção científica dividem o mesmo espaço.

Na mão errada, viraria bagunça. Na de Lanthimos, a bagunça costuma ser o método.

Outra peça importante é o elenco. Emma Stone já mostrou, em mais de uma parceria com o diretor, que sabe habitar personagens opacos. Jesse Plemons, por outro lado, tem aquela calma estranha que deixa qualquer figura obsessiva ainda mais inquietante.

87% no Rotten Tomatoes dizem bastante, mas não tudo

A nota de 87% no Rotten Tomatoes coloca Bugonia num patamar forte para um filme tão esquisito. Não é nota de consenso morno. É nota de filme que convenceu muita gente, mesmo sem tentar agradar todo mundo.

Esse detalhe faz diferença. Ficção científica autoral costuma dividir crítica com facilidade. Quando um thriller fechado, ácido e ambíguo segura esse número, o sinal é bom.

Agora, calma. Chamar de “quase perfeito” talvez seja entusiasmo demais. Lanthimos raramente faz cinema de abraço coletivo. Ele cutuca, incomoda e às vezes ri da cara do espectador.

Teddy (Jesse Plemons) andando de bicicleta com fones de ouvido em Bugonia
Teddy (Jesse Plemons) andando de bicicleta com fones de ouvido em Bugonia (Reprodução)

Para muita gente, esse é justamente o charme. Para outra parte, vira bloqueio. Quem espera uma ficção científica mais clássica, no molde de A Chegada (Arrival), pode sair procurando um filme que nunca esteve ali.

O apelo aqui parece outro: tensão de câmara fechada, humor seco e atuação segurando o rojão. Não parece um filme de efeitos. Parece um filme de olhar, silêncio e desconforto.

O remake de um cult coreano faz sentido aqui

Remake de cult asiático sempre acende alerta. Às vezes o estúdio só quer embalar uma ideia boa para outro mercado. Só que Bugonia tem um argumento melhor que esse.

O original, Save the Green Planet!, já trabalhava paranoia e exagero. Lanthimos construiu carreira inteira em cima de personagens que aceitam o absurdo como rotina. Essa afinidade não parece acidental.

Também pesa o roteiro de Will Tracy. A combinação sugere um filme menos interessado em explicar tudo e mais focado em deixar o público preso naquele espaço mental torto.

Funciona melhor assim. Quanto menos você souber do caminho, maior a chance do filme te pegar pelo colarinho.

Bugonia é o sci — foto de divulgação
Bugonia é o sci — foto de divulgação (Reprodução)

No Brasil, ainda falta o dado que mais interessa

Até o momento da publicação, Bugonia ainda não teve data de estreia confirmada no Brasil nem plataforma divulgada por aqui. Ou seja: nada de streaming definido, e também não há informação pública sobre dublagem em português.

Esse vazio pesa porque o filme tem cara de atrair dois públicos fortes no país. De um lado, quem acompanha Emma Stone. Do outro, a turma que abraçou Lanthimos depois de Pobres Criaturas.

Se chegar aos cinemas, deve chamar atenção pelo elenco e pela assinatura do diretor. Se pintar direto no streaming, a conversa muda: vira um daqueles thrillers estranhos que o público descobre no boca a boca.

Por enquanto, o que existe é um pacote bem claro: Lanthimos, Emma Stone, Jesse Plemons, remake de um cult coreano e 87% no Rotten Tomatoes. Falta saber só a parte decisiva para quem está no Brasil: quando esse filme vai aparecer por aqui — e se ele vai ser vendido como ficção científica, suspense ou pura maluquice autoral.