O thriller APEX, com Charlize Theron, lidera o Top 10 da Netflix em mais de 50 países na segunda semana — e fez algo raro fora das métricas óbvias de streaming. A música central da trilha, Go, do Chemical Brothers, virou hit de novo. Faixa de 2015, do álbum Born in the Echoes, alcançou o 1º lugar no Shazam Global Top 200 e estreou em 5º na Billboard Dance Digital Songs.
Por outro lado, o que torna o caso curioso é o intervalo. Go tem 11 anos e nunca tinha entrado em chart americano. Bastou aparecer numa cena específica do filme — exatamente a sequência em que o vilão Ben (Taron Egerton) avisa Sasha (Theron) que ela tem até o fim da música pra fugir antes da caçada começar — para o público começar a procurar. O Shazam virou termômetro direto.
Stranger Things, Wednesday e agora APEX

O fenômeno se encaixa numa lista curta. Stranger Things ressuscitou Running Up That Hill, da Kate Bush, em 2022, e a faixa de 1985 chegou ao topo de chart pela primeira vez quase 40 anos depois do lançamento. Wednesday repetiu o truque com Bloody Mary, da Lady Gaga — música de 2011 que voltou ao streaming massivo em 2022 graças à coreografia da Jenna Ortega.
De fato, a Netflix vem usando music supervision como ferramenta de marketing orgânico há pelo menos cinco anos. APEX é a terceira validação grande do método — e a primeira em filme, não em série. O padrão se confirma: cena memorável + faixa cult + público novo descobrindo música antiga = chart de novo.
A cena que fez Go subir no Shazam
O eixo do filme é uma caçada humana. Sasha (Charlize Theron) é alpinista experiente que vira presa de um grupo de bilionários colecionadores de troféus. O vilão Ben, vivido por Taron Egerton, abre a perseguição com gesto teatral — coloca Go nos alto-falantes do acampamento, dá vantagem inicial à protagonista e diz que o tempo dela acaba quando a música termina.
Trata-se de needle drop deliberado. O Chemical Brothers compôs Go em 2015 com batida pesada e BPM acelerado — material que combina com perseguição. O diretor Baltasar Kormákur escolheu pela cadência. O efeito colateral foi musical: o público que ouviu a faixa pela primeira vez no filme correu pro Shazam, e a faixa de 11 anos ressurgiu nos charts.
A polarização que ajuda
O detalhe que impressiona é que APEX não é fenômeno de unanimidade. Tem 49% de aprovação da audiência no Rotten Tomatoes, com mais de 1.000 reviews registrados — divisão clara entre quem adorou a tensão constante e quem criticou o terceiro ato. A crítica especializada foi mais receptiva, mas o público se dividiu.
Em paralelo, é exatamente esse tipo de polarização que costuma alimentar audiência de streaming. Quem gostou recomenda; quem detestou comenta. O algoritmo da Netflix favorece engajamento sobre concordância, e a discussão pública gera revisitas que aumentam a métrica final de horas assistidas. APEX entra numa segunda semana com folga porque a discussão ainda não terminou.
O elenco entrega o que o roteiro promete
Charlize Theron volta ao thriller físico depois de The Old Guard, e a aposta é exatamente a química dela com Taron Egerton. Egerton, recém-saído do hit Carry-On em 2024, faz o vilão com tom calculado, sem caricatura. Eric Bana entra como Tommy num papel coadjuvante de peso, e Caitlin Stasey aparece como Leah, parceira de Sasha no acampamento.
A safra de ação Netflix em 2026 está cheia. The Rip, com Matt Damon e Ben Affleck, ocupou o topo na primeira semana. War Machine, com Alan Ritchson, fez 83,7 milhões de views nas duas primeiras semanas — recorde do ano. APEX entra em terceiro nessa lista, com cumulativo de 78,4 milhões em duas semanas. A diferença é que tem agora a trilha sonora viralizando além do filme.
O que isso significa para a Netflix
Trata-se de validação editorial cara. Music supervision não é métrica óbvia para serviço de streaming, mas vira KPI quando a faixa entra no Shazam. Go no topo dá publicidade gratuita ao filme em todas as plataformas de áudio — Spotify, Apple Music, rádio, TikTok. Cada usuário que reconhece a música depois ouve em outra parte ganha estímulo extra para voltar a assistir.
Por fim, fica o argumento que a Netflix vai usar para justificar investimento em direção musical de qualidade. APEX não foi pensada como veículo musical — é filme de ação convencional. Mas a escolha de Kormákur de jogar Go na cena chave virou o tipo de detalhe que separa produto profissional de fenômeno cultural. Em junho, espera-se que outros lançamentos da plataforma comecem a investir mais na curadoria de trilha. APEX abre o caminho.