Tarantino critica roteiros fracos e elenco no automático

Por Leandro Lopes 05/06/2026 às 21:06 5 min de leitura Atualizado: 06/06/2026
Tarantino critica roteiros fracos e elenco no automático
5 min de leitura

Quentin Tarantino voltou a fazer o que sabe: cutucar a indústria. Ao detonar o cinema atual e dizer que prefere ler um livro a encarar boa parte dos lançamentos, o diretor reacendeu um debate velho — e bem atual — sobre roteiro fraco, filme sem personalidade e elenco escalado no automático.

Não é só birra de veterano. Quando o cara de Pulp Fiction e Era Uma Vez em… Hollywood fala assim, a conversa sai da fofoca e entra no coração do problema.

O ataque de Tarantino foi direto

O diretor criticou quase tudo que muita gente já reclama no pós-pandemia: roteiro frouxo, situação implausível, filme tentando agradar todo mundo ao mesmo tempo e escalação de elenco que parece pensada por planilha.

Teve mais. Tarantino ainda comparou a década atual de forma negativa com os anos 1980 e tratou vários lançamentos recentes como filmes sem inspiração, ou simplesmente estúpidos.

“Eu prefiro ler um livro.”

A frase é curta, mas o alvo é grande. Não é um ataque isolado a blockbuster de super-herói ou a streaming. É uma pancada na sensação de que muito filme hoje nasce como conteúdo de catálogo, não como cinema com assinatura.

Kevin Costner em cena aberta de Horizon: Uma Saga Americana, paisagem de faroeste ampla
Kevin Costner em cena aberta de Horizon: Uma Saga Americana, paisagem de faroeste ampla (Reprodução)

Isso combina com o histórico dele. Tarantino sempre valorizou filme de gênero com cara de diretor, diálogo afiado, mise-en-scène forte e um mundo que puxa o espectador para dentro. Quando ele rejeita o presente, a crítica não é só comercial. É estética.

As três exceções dizem muito sobre o gosto dele

Tarantino não saiu dizendo que tudo é ruim. Ele citou três exceções: Amor, Sublime Amor (West Side Story), de Steven Spielberg; Horizon: Uma Saga Americana (Horizon: An American Saga), de Kevin Costner; e Dinheiro Suspeito (The Rip), thriller policial de Joe Carnahan para a Netflix.

Olha o padrão. Um musical clássico refilmado por Spielberg, um faroeste grandalhão de Costner e um policial duro de Carnahan. Três filmes com diretor no comando, gosto por gênero e cara de cinema adulto. Tarantino foi coerente até na lista.

Filme Diretor O que combina com Tarantino Situação no Brasil
Amor, Sublime Amor Steven Spielberg Musical clássico, encenação forte, direção muito visível Lançado no Brasil e com passagem pelo Disney+
Horizon: Uma Saga Americana Kevin Costner Faroeste épico, ambição formal, cinema de gênero sem vergonha de ser grande Distribuição mais irregular e sem presença estável no streaming
Dinheiro Suspeito Joe Carnahan Thriller policial seco, foco em tensão e personagens adultos Netflix; estreia brasileira ainda depende de confirmação no catálogo regional

Entre os três, Amor, Sublime Amor no Rotten Tomatoes é o exemplo mais fácil de entender. Spielberg pegou uma história ultra conhecida e transformou o filme em aula de direção, movimento de câmera e montagem musical.

Rachel Zegler e Ansel Elgort em cena de Amor, Sublime Amor, visual clássico do musical de Spielberg
Rachel Zegler e Ansel Elgort em cena de Amor, Sublime Amor, visual clássico do musical de Spielberg (Reprodução)

Horizon: Uma Saga Americana tem a cara de um cinema que quase sumiu do circuito. Faroeste longo, adulto, sentimental e disposto a correr risco. Pode dividir plateia, claro. Mas Tarantino nunca teve medo de filme que divide.

O caso mais curioso é Dinheiro Suspeito. Tarantino tratou o longa como o elogio mais forte do pacote, só que a situação dele no Brasil ainda pede cautela. A Netflix está por trás do projeto, mas a janela exata por aqui não foi detalhada publicamente até agora.

Nostalgia demais? Nem tanto

Dá para dizer que Tarantino exagera no tom. Afinal, a década de 2020 já entregou muito filme forte, de Anatomia de uma Queda a Zona de Interesse, passando por títulos de terror e animação que arriscaram bastante.

Mas ele acerta numa ferida real. O filme adulto original perdeu espaço nas salas, o meio do mercado quase evaporou e muita coisa foi empurrada direto para o streaming com cara de produto intercambiável.

No Brasil, isso bate fácil de reconhecer. Quantos dramas, thrillers e faroestes realmente respiram no cinema por mais de duas semanas? Poucos. O multiplex gira rápido, e o algoritmo do streaming nem sempre ajuda quem quer achar algo fora do pacote óbvio.

Também tem um ruído aí: hoje existe muito filme bom, mas ele circula pior. Tarantino olha para os anos 1980 e enxerga uma era com mais identidade no mainstream. Muita gente vai discordar da comparação. Só não dá para dizer que ele inventou o sintoma.

O debate chega inteiro ao Brasil

A fala dele pega porque o público brasileiro vive esse mesmo impasse. De um lado, franquia, continuação e universo compartilhado. Do outro, filmes menores brigando por horário, tela e atenção. Quando um diretor desse tamanho diz que prefere um livro, ele está chamando o cinema atual de preguiçoso em voz alta.

E tem um detalhe prático no meio disso tudo. Dos três filmes citados, o mais acessível por aqui é Amor, Sublime Amor, que já passou pelo Disney+; Horizon: Uma Saga Americana segue com circulação mais limitada; e Dinheiro Suspeito ainda espera a Netflix abrir a janela brasileira.

Tarantino pode estar saudosista. Pode mesmo. Só que, quando ele salva justamente três filmes com diretor forte, gênero clássico e cara de cinema de verdade, sobra uma pergunta difícil de ignorar: o problema é que o cinema piorou — ou ficou mais difícil encontrar o que presta?