Os filmes da Pixar nos anos 2020 contam uma década mais bagunçada do que o estúdio gostaria. Teve mega-hit de US$ 1,6 bilhão, fracasso comercial e até ranking por aí tratando série como filme. Abaixo, vai a versão corrigida: 10 títulos, do pior ao melhor, com foco em crítica, impacto e onde assistir no Brasil.
Tem um ajuste básico antes de começar. Win or Lose não é filme. É série animada da Pixar, lançada no Disney+ em 2026. Se ela sai da conta, Soul (Soul) entra no lugar e a lista finalmente fecha com 10 longas de verdade.
A conta certa troca uma série por Soul
Esse erro parece pequeno, mas muda tudo. Sem Soul, a década fica torta, porque some justamente um dos filmes mais fortes da Pixar no período, com 95% no Rotten Tomatoes e peso de obra grande.
Também tem outro detalhe. Hoppers (Hoppers) e Toy Story 5 (Toy Story 5) ainda estão em janela muito recente de 2026. Dá para ranquear? Dá. Mas com aviso: essas posições ainda podem mexer quando a poeira baixar.
Essa necessidade de corrigir a lista também diz algo sobre a própria Pixar recente. Durante boa parte dos anos 2000 e 2010, o estúdio foi tratado como sinônimo de longa animado de prestígio, quase sempre com identidade muito clara e presença dominante nos cinemas. Nos anos 2020, a marca entrou numa fase mais confusa: filmes desviados para o streaming, calendário afetado pela pandemia, sequência bilionária dividindo espaço com originais que sofreram para chamar atenção e uma percepção pública menos automática de “evento”.
Do pior ao melhor, sem contar série como filme
O critério aqui junta recepção crítica, força narrativa, impacto cultural e resultado de mercado. Bilheteria sozinha não decide. Se decidisse, Divertida Mente 2 pisaria em todo mundo sem discussão.
| Posição | Filme | Recorte rápido |
|---|---|---|
| 10 | Lightyear (Lightyear) | 74% no RT, US$ 226,4 milhões mundialmente e um spin-off sem o carisma de Buzz |
| 9 | Elio (Elio) | Sci-fi emocional, boas ideias e bilheteria abaixo do esperado |
| 8 | Hoppers (Hoppers) | Conceito forte, mas ainda recente demais para subir com segurança |
| 7 | Elementos (Elemental) | 73% no RT e uma recuperação comercial rara depois da estreia fraca |
| 6 | Toy Story 5 (Toy Story 5) | Evento de franquia, mas ainda em consolidação crítica e comercial |
| 5 | Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward) | 88% no RT e a carreira mais sabotada possível pela pandemia |
| 4 | Luca (Luca) | 91% no RT, leveza de verão e um dos acertos mais simpáticos da fase Disney+ |
| 3 | Red: Crescer é uma Fera (Turning Red) | 95% no RT, humor afiado e uma voz autoral rara dentro da Pixar |
| 2 | Soul (Soul) | 95% no RT, ambição filosófica e um dos roteiros mais maduros do estúdio |
| 1 | Divertida Mente 2 (Inside Out 2) | 91% no RT, mais de US$ 1,6 bilhão e status de fenômeno global |
Lightyear fica no fim porque erra no essencial. A ideia de transformar Buzz em herói de ficção científica era boa. O problema é que o filme nunca encontra o coração que fazia Toy Story funcionar.

Isso pesa ainda mais por causa do histórico da franquia. Toy Story não é só uma marca forte da Pixar; é a obra que ajudou a definir o estúdio desde 1995, com mistura de inovação técnica, humor e melancolia. Quando Lightyear troca esse elo emocional por uma aventura mais genérica, a comparação fica inevitável. Em vez de parecer um novo capítulo vital, ele lembra outros derivados de grandes propriedades que expandem universo sem ampliar significado.
Elio vem logo acima por um motivo parecido. Tem emoção, tem conceito e tem ambição visual. Só que chegou ao público sem força suficiente para virar conversa grande.
No caso de Elio, a recepção morna mostra um problema que não é só dele. A animação original recente passou a competir não apenas com continuações famosas, mas com um mercado acostumado a reconhecer personagens já conhecidos em segundos. Em comparação com produções da própria Disney Animation ou com sucessos familiares da Illumination, a campanha parecia depender demais de descoberta espontânea. Quando essa conexão inicial não acontece, um filme pode até ser admirado, mas demora a ganhar escala cultural.
No meio da tabela, Elementos, Hoppers, Toy Story 5 e Dois Irmãos ocupam um terreno instável. Um cresceu no boca a boca, outro ainda está fresco demais, um depende da nostalgia e o quarto foi esmagado pelo pior timing possível.
Elementos merece respeito pela virada. Abriu mal, parecia condenado e terminou com cerca de US$ 496,4 milhões no mundo. Não virou clássico instantâneo, mas foi muito melhor do que a estreia fazia parecer.
Essa recuperação teve implicações importantes para a Pixar. Ela provou que o estúdio ainda consegue produzir originais com perna longa quando o público compra a proposta emocional, mesmo sem estreia explosiva. Também reforçou um traço criativo clássico da casa: usar mundos high concept para dramatizar sentimentos familiares. A cidade dividida por elementos, que poderia soar apenas como truque visual, funciona melhor quando lida como história sobre pertencimento, herança e convivência entre diferenças. Em obras parecidas, como Zootopia, a alegoria social é mais frontal; em Elementos, ela é mais romântica e doméstica.
Toy Story 5 entra alto, porém com freio de mão puxado. É franquia de primeira linha da Pixar. Só que ranking sério não pode viver só de legado. Sem janela completa, o sexto lugar é prudente.
Essa cautela tem a ver com a reação recorrente do público a sequências tardias. A Pixar construiu parte de sua reputação sabendo encerrar ciclos com elegância, especialmente em Toy Story 3. Toda volta posterior é julgada não apenas pelo que entrega agora, mas pelo quanto mexe numa memória afetiva já consolidada. É diferente do que acontece com séries mais abertas, nas quais novos capítulos são esperados quase por inércia. Aqui, a cobrança é mais alta: justificar a própria existência.
Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, por sua vez, acabou virando símbolo do momento em que a década saiu dos trilhos. Lançado no começo da pandemia, perdeu a chance de maturar nos cinemas como outras animações familiares costumam fazer. A recepção crítica foi boa, e a proposta de fantasia suburbana tinha um charme incomum, quase como se a Pixar cruzasse RPG, luto e comédia de irmãos. Em outra conjuntura, talvez disputasse posições ainda mais altas.
Lá em cima, a disputa apertou. Luca tem uma delicadeza que envelheceu bem no streaming. Red: Crescer é uma Fera foi ainda mais ousado, com humor adolescente, subtexto sobre puberdade e 95% no Rotten Tomatoes.
Luca ganhou força justamente por escolhas criativas menos barulhentas. Em vez de tentar o gigantismo emocional de outros títulos da casa, preferiu escala íntima, calor mediterrâneo e uma amizade central muito bem observada. Muita crítica enxergou ali um parentesco com filmes de amadurecimento europeus, em contraste com a engenharia dramática mais intensa de obras como Viva ou Divertida Mente. O público respondeu com carinho duradouro, especialmente no streaming, onde a revisita conta muito.
Já Red: Crescer é uma Fera se destacou por ter assinatura mais explícita. O olhar sobre adolescência, vergonha, obsessões pop e relação entre mãe e filha não parecia diluído para caber em qualquer molde. Isso explica por que a reação crítica foi tão forte: muita gente viu ali uma Pixar mais específica, menos preocupada em parecer universal no sentido genérico e mais interessada em ser honesta. A recepção do público teve ruído em alguns grupos, mas esse atrito ajudou a transformá-lo em conversa real, não só em consumo passageiro.
Soul e Divertida Mente 2 fecham o topo por caminhos opostos. Um é introspectivo, quase existencial. O outro fala com o grande público e ainda domina a bilheteria. Entre os dois, o desempate fica com o tamanho do estrago positivo: Divertida Mente 2 mexeu no mercado inteiro.
Soul representa um tipo de ambição que ficou mais raro na animação de estúdio: a de confiar que crianças e adultos podem embarcar juntos em temas abstratos, como vocação, frustração e sentido da vida. Há ecos de títulos anteriores da Pixar que apostavam em ideias metafísicas, mas aqui o tratamento é mais contemplativo. A crítica comprou esse movimento quase em bloco, e muita da admiração veio da sensação de que o estúdio ainda conseguia correr riscos formais e temáticos sem perder acessibilidade.
No caso de Divertida Mente 2, o impacto vai além do ranking. O desempenho mostrou que a Pixar ainda pode operar como força central do cinema global quando combina conceito claro, personagens já amados e leitura emocional imediata. Depois de anos em que se discutia desgaste da marca, a continuação funcionou como correção de rota comercial. Também reforçou a vantagem competitiva desse universo em relação a outras franquias familiares: transformar processos mentais em espetáculo pop que o público entende rápido, comenta nas redes e leva em grupos ao cinema.
Disney+ virou a casa da Pixar no Brasil
No Brasil, quase toda essa safra está no Disney+, com dublagem em português. Isso vale para títulos como Luca, Red: Crescer é uma Fera, Soul, Elementos, Lightyear e Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica.
Esse deslocamento para o streaming ajudou a moldar a reputação da década. Filmes como Luca e Red foram muito bem recebidos, mas perderam o ritual de validação pública que uma grande estreia em cinema costuma oferecer. Em compensação, ganharam vida longa de catálogo, circulação constante e uma intimidade maior com famílias que assistem e reassistem em casa. No Brasil, isso pesa ainda mais porque o Disney+ virou o ponto de encontro mais estável para a filmografia recente do estúdio.
Para quem olha a década inteira, o ranking final parece menos uma sequência linear de acertos e mais um retrato de transição. A Pixar dos anos 2020 oscilou entre originalidade autoral, dependência de franquias, traumas de distribuição e um retorno vigoroso ao topo do mercado. Essa montanha-russa explica por que corrigir a lista importa tanto: quando a fase é instável, tirar Soul da conversa não é detalhe, é apagar uma das peças que melhor mostram o que o estúdio ainda consegue fazer em seu nível mais alto.