A falta de um filme dos Vingadores virou um dos maiores problemas do MCU depois de Vingadores: Ultimato (Avengers: Endgame). A Marvel espalhou o foco entre heróis solo, séries do Disney+ e equipes paralelas, mas o calendário perdeu a sensação de evento que antes amarrava tudo.
E isso ficou visível rápido.
De 2012 a 2019, os Vingadores funcionavam como cola. Quando essa cola sumiu, o universo continuou crescendo — só que mais solto, mais fragmentado e, em vários momentos, menos urgente.
O buraco que ficou depois de Ultimato
Vingadores: Ultimato fechou uma era com força bruta. Foram cerca de US$ 2,799 bilhões no mundo, além de um peso cultural que poucos blockbusters alcançam. Era filme de fim de fase, fim de saga e fim de conversa no almoço.
Depois disso, a Marvel mudou o plano. Em vez de correr para outro encontro do time, preferiu abrir espaço para novos protagonistas, apresentar franquias e usar o streaming como extensão do cinema.
No papel, fazia sentido. Na prática, faltou um centro claro.
O MCU não ficou sem heróis. Ficou sem reunião. Parece detalhe, mas não é. Antes, cada fase andava para um crossover. Nas Fases 4 e 5, a lógica virou outra: os filmes dos Vingadores passaram a ser tratados como fechamento de saga, não mais de fase.
| Projeto | Formato | Função na estratégia | O que entregou |
|---|---|---|---|
| Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis | Filme | Sugerir um novo núcleo conectado | A reunião mais próxima de um “novo Vingadores” no pós-Ultimato |
| Séries do Disney+ | Streaming | Expandir personagens e cruzar histórias | Mais volume, mas público dividido entre cinema e TV |
| Thunderbolts* | Filme | Testar uma equipe com cara de evento | Substituto parcial, não um novo Vingadores |
| Vingadores: Doomsday | Filme | Reunir heróis em escala de saga | Correção de rota já assumida pela Marvel |

Shang-Chi foi o sinal mais claro
Se houve um momento em que a Marvel quase disse “calma, a nova mesa está sendo montada”, ele veio no fim de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings).
A cena pós-créditos junta Capitã Marvel, Bruce Banner e Wong para discutir os Dez Anéis com Shang-Chi. Não era um time oficial. Mas era, sim, o gesto mais perto de uma convocação.
Funcionou? Só até certo ponto.
O filme foi bem recebido e somou cerca de US$ 432 milhões no mundo, um resultado forte para o momento da pandemia. Mesmo assim, aquela provocação não virou linha central do MCU. Ficou como pista isolada.
Aí mora a sensação estranha de muita gente com a Marvel recente: vários começos, poucos encontros. O estúdio abriu portas demais e demorou para mostrar qual delas realmente importava.
Séries demais, equipes demais, foco de menos
O Disney+ ajudou a expandir o universo, mas também embaralhou a experiência. Quem via só os filmes passou a sentir que estava perdendo peças. Quem acompanhava tudo começou a notar um excesso de caminhos paralelos.
Não foi falta de tentativa. A Marvel lançou heróis novos, puxou personagens secundários para o centro e ensaiou novas formações. Thunderbolts* entrou nessa conta. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, também.
Mas nenhum desses projetos ocupou a mesma função que Vingadores: Guerra Infinita, Vingadores: Ultimato ou até Capitão América: Guerra Civil tiveram. Um era crossover total. O outro era quase um mini-Vingadores. Todo mundo entendia o tamanho do momento.
Nas Fases 4 e 5, isso sumiu. O calendário ficou mais cheio, mas menos concentrado. Mais conteúdo não significa mais impacto — e o MCU descobriu isso do jeito difícil.
Até comercialmente, a diferença pesa. Não dá para comparar qualquer filme diretamente com Ultimato, claro. Aquilo foi exceção histórica. Só que a ausência de um novo filme-evento tirou da Marvel um ponto de encontro que organizava expectativa, conversa e bilheteria ao mesmo tempo.
Sem esse pico, o universo ficou parecendo uma sequência de capítulos soltos. Alguns bons. Outros esquecíveis. Quase nenhum com cara de “todo mundo precisa ver agora”.
Doomsday virou mais do que um crossover
É por isso que Vingadores: Doomsday (Avengers: Doomsday) pesa tanto antes mesmo da estreia. O filme não entra só como próximo capítulo grande. Ele chega com cara de ajuste estrutural.
A Marvel já deixou claro, pelo desenho da saga, que Vingadores: Guerras Secretas (Avengers: Secret Wars) será o outro grande fechamento da era multiversal. Em outras palavras: os Vingadores voltam a ser a moldura principal da história.
Isso tem lado bom e lado arriscado. Bom, porque devolve unidade ao MCU. Arriscado, porque a pausa foi longa demais e boa parte do elenco original já saiu de cena. Reunir heróis é uma coisa. Recriar o peso simbólico do time de 2012 a 2019 é outra.
O público sente essa diferença. Não basta juntar personagens num pôster. Precisa parecer encontro inevitável, não planilha de franquia.
No Disney+ Brasil, a diferença aparece na estante
Hoje, Vingadores: Ultimato e Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis estão disponíveis no Disney+ Brasil, com dublagem em português. Já Vingadores: Doomsday e Vingadores: Guerras Secretas seguem apenas como projetos anunciados, sem exibição no catálogo brasileiro.
Olhar essa prateleira ajuda a entender o problema. Os filmes antigos apontavam para uma reunião. Os mais recentes, muitas vezes, apontaram para várias direções ao mesmo tempo. Agora a Marvel tenta juntar tudo de novo — e a pergunta que ficou desde 2019 continua aberta: ainda dá para fazer os Vingadores parecerem indispensáveis?