O terceiro julgamento de Harvey Weinstein em Nova York terminou sem veredito. Depois de três dias de deliberação, o júri não chegou a um consenso e o juiz Curtis Farber declarou mistrial, encerrando o processo sem decisão final. Agora, o caso entra em outra fase: o promotor Alvin Bragg precisa decidir se tenta um quarto julgamento.
Sem consenso. De novo.
O que aconteceu desta vez
O julgamento mais recente estava centrado na acusação de estupro em terceiro grau ligada a Jessica Mann. Era a peça que ainda faltava ser resolvida depois do veredito misto de 2025.
Após três dias de deliberação, os jurados avisaram que não conseguiam chegar a uma decisão unânime. Curtis Farber ainda tentou manter o grupo debatendo, mas o impasse continuou.
A defesa de Weinstein pediu formalmente a anulação do julgamento. O juiz aceitou. Na prática, isso significa que o caso foi encerrado sem condenação e sem absolvição.
Weinstein, hoje com 74 anos, segue sob custódia e continua envolvido em outras frentes judiciais. O desfecho em Nova York não limpa a ficha dele nem fecha o capítulo.
Mistrial não é absolvição
Esse detalhe importa. Muito.
Mistrial é o termo jurídico usado quando um julgamento termina sem resultado válido. Isso pode acontecer por erro processual grave ou, como neste caso, por júri travado.
Em inglês, a expressão comum é hung jury. Traduzindo para o português claro: os jurados ficaram divididos e não alcançaram a unanimidade exigida.
Por isso, chamar o caso de “anulado” sem contexto pode confundir. Não houve reversão de mérito agora. O que houve foi um encerramento sem veredito.
Mas e isso muda o quê? Muda bastante. Como não existe decisão final sobre essa acusação específica, o Ministério Público de Manhattan ainda pode tentar novamente.

Foi exatamente esse caminho torto que trouxe o caso até aqui. E ele já vinha torto há anos.
Seis anos de idas e vindas
Em 2020, Weinstein foi condenado em Nova York por estupro contra Jessica Mann. Parecia o encerramento de um dos casos mais simbólicos do pós-#MeToo.
Não durou. Em 2024, um tribunal superior anulou a condenação e abriu espaço para novo julgamento.
| Ano | Desdobramento | Situação |
|---|---|---|
| 2020 | Condenação em Nova York por estupro contra Jessica Mann | Condenado |
| 2024 | Tribunal superior anula a condenação | Novo julgamento autorizado |
| 2025 | Veredito misto: culpa no caso de Miriam Haley, absolvição no de Kaja Sokola e impasse no de Jessica Mann | Acusação de Mann segue aberta |
| 2026 | Terceiro julgamento sobre Jessica Mann termina com júri travado | Mistrial |
Em junho de 2025, o novo julgamento acabou num meio-termo estranho. Weinstein foi considerado culpado por ato sexual criminoso em primeiro grau contra Miriam Haley, foi absolvido da acusação ligada a Kaja Sokola e o júri travou justamente na parte envolvendo Jessica Mann.
Foi isso que gerou o terceiro julgamento encerrado agora. Não é um caso novo. É o mesmo nó jurídico apertando de novo.
No meio da indústria, o peso simbólico continua enorme. O caso Weinstein virou um marco do #MeToo e ajudou a redefinir o jeito como Hollywood passou a tratar denúncias de abuso, bastidores de estúdio e reputação pública.
Quem acompanha cinema e séries lembra fácil do tamanho desse impacto. Ela Disse (She Said), por exemplo, dramatizou a investigação jornalística que ajudou a derrubar o produtor.
Nova York empaca enquanto Los Angeles segue em apelação
Tem mais uma camada aí. Weinstein também foi condenado em Los Angeles em 2022, e essa sentença continua em apelação.
Ou seja: o impasse em Nova York não apaga o restante da guerra judicial. Ele só mostra que a acusação ligada a Jessica Mann segue sem fechamento definitivo.
Isso pesa para a promotoria. Um quarto julgamento consome tempo, dinheiro e fôlego político, além de recolocar testemunhas e vítimas num processo desgastante.

Do lado da defesa, o discurso foi previsível. Os advogados comemoraram o resultado e insistiram que o júri travado reforça a existência de dúvida razoável.
No tribunal da opinião pública, essa leitura não resolve nada. No tribunal de fato, porém, ela basta para impedir uma condenação imediata.
O próximo passo está com Alvin Bragg
A decisão agora está nas mãos do escritório do promotor distrital de Manhattan, comandado por Alvin Bragg. O órgão terá prazo para dizer se insiste num quarto julgamento, se busca outro desfecho processual ou se encerra a tentativa nessa acusação.
Quem quiser acompanhar os próximos movimentos pode monitorar o site oficial do gabinete do promotor distrital de Manhattan. É dali que deve sair a sinalização institucional mais importante dos próximos dias.
Para quem olha o caso do Brasil, o dado que fica é simples e incômodo: um dos processos mais emblemáticos do #MeToo ainda não conseguiu fechar a acusação ligada a Jessica Mann, mesmo depois de condenação anulada, veredito misto e mais um júri travado. A pergunta agora não é se Weinstein saiu absolvido. Não saiu. A pergunta é outra: Nova York ainda vai levar esse caso ao tribunal mais uma vez?