Fox e Roku: A compra que mexe na TV conectada

Por Rafael Duarte 15/06/2026 às 19:01 6 min de leitura
Fox e Roku: A compra que mexe na TV conectada
6 min de leitura

A Fox confirmou nesta segunda, 15/06/2026, a compra da Roku por cerca de US$ 22 bilhões. O acordo mistura dinheiro e ações e coloca a dona do Tubi numa disputa bem maior: controlar a tela da sala, os anúncios e a distribuição do streaming.

Resumo rápido

Não é compra de fabricante de aparelho. É compra de porta de entrada. E isso explica por que Wall Street vai tratar essa operação como uma das mais pesadas do streaming em 2026.

A compra é pela tela, não pelo controle remoto

A tese da Fox é clara. Em vez de depender só de canais, direitos esportivos e conteúdo, a empresa quer entrar no ponto onde o público escolhe o que assistir.

A Roku entrega exatamente isso. Seu ecossistema combinado com a Fox e o Tubi dá alcance potencial a mais de 100 milhões de lares, número que a empresa usa para vender escala em TV conectada.

“Um momento decisivo” para a Fox.

Essa frase resume a jogada. A Fox quer juntar esportes, notícias, entretenimento e publicidade digital dentro do mesmo trilho de distribuição.

Pessoa usando smart TV na sala, navegando por aplicativos de streaming e banners de anúncios em tela conectada
Pessoa usando smart TV na sala, navegando por aplicativos de streaming e banners de anúncios em tela conectada (Reprodução)

Na prática, a empresa tenta encurtar um caminho que rivais já trilham há anos. Amazon tem Fire TV e Prime Video. Google tem YouTube, Android TV e uma máquina publicitária gigante. A Fox estava atrás nessa corrida.

O caixa da Roku ajuda a explicar o tamanho da aposta

A Roku chegou a 2026 em posição melhor do que muita gente imaginava. Em 2025, registrou seu primeiro lucro anual completo: US$ 88,4 milhões sobre receita de US$ 4,74 bilhões.

No fim do primeiro trimestre, tinha US$ 1,65 bilhão em caixa e nenhuma dívida. Para um alvo de aquisição, é o tipo de balanço que tira parte do risco da mesa.

A relação entre as duas empresas também não começou ontem. A Fox já foi investidora da Roku e vendeu sua fatia de 5% em 2020. Antes disso, comprou o Tubi por US$ 440 milhões.

Anthony Wood, fundador e CEO da Roku, seguirá com papel relevante e vai entrar no conselho da Fox. Isso indica continuidade. Pelo menos no papel.

Quem já joga esse jogo

O tabuleiro da TV conectada já tem donos fortes. A diferença é que a Fox decidiu parar de ser apenas fornecedora de conteúdo e começar a disputar distribuição, dados e inventário publicitário.

Grupo Ecossistema Força principal
Amazon Fire TV + Prime Video Hardware, streaming e anúncios
Google YouTube + Google TV Distribuição massiva e publicidade
Disney Disney+ + Hulu + ESPN Conteúdo premium e pacote integrado
Comcast Peacock + Xumo TV conectada e FAST
Paramount Paramount+ + Pluto TV Streaming gratuito com anúncios

Faz sentido. O mercado saiu da lógica de assinatura pura faz tempo. Agora vale mais quem combina catálogo, distribuição, publicidade e dados de audiência no mesmo ecossistema.

Montagem com logos de Amazon Fire TV, YouTube, Disney+, Peacock e Pluto TV em comparação com Roku
Montagem com logos de Amazon Fire TV, YouTube, Disney+, Peacock e Pluto TV em comparação com Roku (Reprodução)

Tubi ganha uma avenida maior

Se existe um braço da Fox que pode sair turbinado dessa história, é o Tubi. O serviço gratuito com anúncios encaixa perfeitamente no plano de crescer em AVOD, FAST e CTV.

Traduzindo: vídeo sob demanda com anúncios, canais gratuitos via internet e TV conectada. Parece sopa de letrinhas, mas o dinheiro está aí.

Com a Roku dentro de casa, a Fox passa a ter mais espaço para distribuir o Tubi, vender anúncios melhor segmentados e testar formatos novos na TV. Não é sobre lançar mais uma assinatura. É sobre ganhar minutos de atenção.

Nos materiais para investidores publicados pela Fox, o discurso gira em torno de escala, monetização e presença digital. Linguagem de mercado, claro. Mas o alvo real é o mesmo de todo mundo: o tempo que você passa na tela inicial da TV.

No Brasil, o efeito ainda é indireto

Quem está no Brasil não verá mudança imediata em app, assinatura ou catálogo por causa do anúncio. Até agora, não existe informação sobre preços, integração de plataformas ou mexida prática para o usuário daqui.

Mesmo assim, a notícia interessa. Se a Fox acertar a mão nos EUA, a pressão sobre publicidade em smart TVs cresce no mundo inteiro. E esse mercado já movimenta as estratégias de Netflix, Prime Video, YouTube e Disney+ por aqui.

Tem outro detalhe. A compra também reforça uma tendência que já bate na porta do Brasil: streaming gratuito com anúncio deixando de ser complemento e virando peça principal do jogo.

Fox e Roku — foto de divulgação
Fox e Roku — foto de divulgação (Reprodução)

O negócio ainda passa por dois testes

Primeiro, regulação. Uma operação de US$ 22 bilhões entre mídia, distribuição e publicidade não passa invisível. O fechamento está previsto para o primeiro semestre de 2027, então o caminho ainda é longo.

Segundo, confiança do mercado na neutralidade da Roku. A plataforma sempre vendeu a ideia de casa aberta para vários parceiros. Depois da compra, todo mundo vai observar se essa abertura continua igual.

Também não há anúncio sobre cortes de pessoal, mudança de marca ou integração direta entre Fox Sports, Fox News e outros produtos em uma oferta única. Isso pode virar o próximo capítulo. Ou o primeiro atrito.

Até o primeiro semestre de 2027, sua rotina no streaming brasileiro segue igual. A dúvida que fica é outra: a Roku continuará sendo vitrine para todos ou vai começar a organizar a sala em favor da própria Fox?