Super, de James Gunn, voltou ao radar porque envelheceu melhor do que parecia em 2010. Rever o filme hoje ajuda a entender a mistura de violência, humor torto e afeto que explodiu em Guardiões da Galáxia, Pacificador e agora Superman.
Fracassou nos cinemas e dividiu a crítica. Só que aqueles 96 minutos já tinham quase tudo que virou assinatura de Gunn: perdedores quebrados, piada desconfortável, sangue sem glamour e uma ternura estranha no meio do caos.
Ficha técnica de Super
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Título original | Super |
| Título no Brasil | Super |
| Direção | James Gunn |
| Roteiro | James Gunn |
| Elenco principal | Rainn Wilson, Elliot Page, Kevin Bacon, Liv Tyler e Nathan Fillion |
| Gênero | Ação, comédia negra, drama e super-herói |
| Duração | 96 minutos |
| Ano de lançamento | 2010 |
| País | Estados Unidos |
| Produção | Dark Hero Studios e This Is That Productions |
| Distribuição nos EUA | IFC Films |
| Classificação | R / 18+ |
| Bilheteria mundial | Cerca de US$ 593 mil |
| Rotten Tomatoes | Cerca de 50% |
| Metacritic | Cerca de 50/100 |
Os números são duros. US$ 593 mil no mundo é muito pouco até para um lançamento limitado.
Na crítica, a divisão também ficou estampada. No Rotten Tomatoes, o filme ronda 50%. No Metacritic, a nota fica na mesma faixa.
Um filme pequeno, feio e muito pessoal
Super saiu num momento ruim da vida de Gunn. Isso aparece na tela sem filtro.
Frank Darbo, personagem de Rainn Wilson, não funciona como herói tradicional. Ele parece um homem esmagado, agarrado a uma missão torta para não desabar de vez.
Tem vingança, claro. Mas o motor do filme é mais triste do que épico. O subtexto religioso também pesa, porque Frank trata a própria cruzada como chamado divino, não como fantasia de HQ.
Libby, vivida por Elliot Page, joga outra energia na história. Ela é caótica, engraçada e assustadora. Também vira um segundo polo emocional do diretor, tão intenso quanto Frank.

Essa dupla explica por que tanta gente reconsiderou o longa. Quando Gunn acerta a mão, Super para de ser só provocação e vira confissão.
O filme ainda tem arestas. Algumas cenas passam do limite, e de propósito. Só que hoje isso parece menos pose de choque e mais desabafo bruto de um diretor tentando organizar a própria raiva.
Kick-Ass ficou pop. Super ficou estranho
2010 também teve Kick-Ass: Quebrando Tudo, outro filme desmontando a fantasia do vigilante. A diferença é simples.
Kick-Ass é rápido, colorido e mais fácil de abraçar. Super é sujo, incômodo e bem menos simpático. Um virou hit de cultura pop. O outro virou peça cult.
Mas será que o tempo jogou contra Super? Nem tanto.
Depois de mais de uma década de filmes de herói polidos demais, o longa de Gunn parece mais vivo justamente por não pedir licença. Ele erra em público. Sangra em público. E isso ficou raro.
Dá para enxergar ali o corredor inteiro da filmografia posterior. Os desajustados de Guardiões da Galáxia, a violência debochada de O Esquadrão Suicida e o coração partido de Pacificador já estavam todos nesse rascunho.

Claro, em estado bruto. Guardiões encontra equilíbrio. Pacificador amadurece a mistura de piada e trauma. Super ainda opera na pancada, quase sem amortecedor.
É justamente por isso que ele ganhou outro peso agora. Com Gunn no comando da DC Studios, revisitar esse filme parece olhar o laboratório antes da versão bilionária.
O que Super revela sobre o James Gunn de hoje
Tem um traço que atravessa tudo: Gunn gosta de gente ridícula, ferida e sincera. Não de semideuses intocáveis.
Frank não é carismático no sentido óbvio. Libby também não. Mesmo assim, os dois pedem atenção porque o diretor nunca os trata como piada vazia. Ele ri deles e com eles.
Esse equilíbrio ficou mais refinado depois. Em Super, a parte “Troma” ainda aparece forte, com violência gráfica e humor de mau gosto. Só que o coração já estava ali, tentando abrir espaço.
Por isso o filme envelheceu melhor do que parecia na época. Não porque virou obra-prima escondida, mas porque hoje ele faz sentido dentro da linha do tempo de Gunn.
No Brasil, continua difícil de achar
A parte chata é essa: Super não tem casa fixa nos streamings do Brasil. O filme costuma circular mais em aluguel digital do que em catálogo permanente.
Também não é um título conhecido por dublagem de catálogo. Quando aparece por aqui, o mais comum é encontrar versão legendada.
Quem quiser ver vai precisar garimpar. E talvez esse seja o destino mais curioso possível para um filme tão importante na carreira de Gunn: enquanto Superman carrega o peso do novo DCU, o esboço mais brutal dessa sensibilidade segue escondido em locadoras digitais.