O nome Ed Gein volta a assombrar o streaming. A terceira temporada da antologia Monstro, agora batizada Monstro: A História de Ed Gein, transformou o açougueiro de Plainfield no rosto mais comentado da Netflix em outubro de 2025. Charlie Hunnam encarna o fazendeiro do Wisconsin que inspirou Norman Bates, Leatherface e Buffalo Bill, e o trabalho rendeu indicações ao Globo de Ouro mesmo com a crítica metendo o pau na produção. Por trás dos 22% no Rotten Tomatoes, porém, mora um arsenal de detalhes raros que poucos fãs do horror moderno conhecem.
O que ninguém te contou sobre o homem que pariu o horror moderno
1. O “sim” mais fácil da carreira de Ryan Murphy veio de uma foto paparazzi
Ryan Murphy contou que escalar Charlie Hunnam como Ed Gein foi o “sim” mais rápido que ele já conseguiu. O criador viu uma foto paparazzi do ator, sentiu o estalo criativo e marcou a reunião. Hunnam chegou achando que era um papo qualquer e saiu já mergulhado no universo do açougueiro de Plainfield. Murphy passava os três dias anteriores escrevendo sobre Gein quando bateu o impulso de ligar pro intérprete.
2. Charlie Hunnam perdeu quase 14 quilos em três semanas
O ator derreteu quase 14 quilos em três semanas para alcançar o corpo subnutrido do açougueiro de Plainfield. Aos 45 anos, o galã de Sons of Anarchy tirou a musculatura conquistada em décadas para parecer um fazendeiro magro do Wisconsin rural. Em entrevistas, ele admitiu que o desafio físico nem foi o mais pesado: o real fardo foi o mergulho psicológico, que o levou inclusive a visitar o túmulo de Gein.
3. Hunnam caçou uma fita inédita de 70 minutos para roubar a voz de Gein
Para escapar do clichê de sotaque caipira genérico, Charlie Hunnam rastreou Joshua Kunau, produtor do documentário Psycho: The Lost Tapes of Ed Gein, e conseguiu acesso a uma entrevista de 70 minutos gravada na noite da prisão de 1957. Ouvindo a fita, o ator descobriu que a voz fina e infantil do assassino era uma performance. “Não era a voz autêntica que vivia nele. Era essa persona”, resumiu em entrevista à Box Life Magazine.
4. Ryan Murphy saiu da escrita pela primeira vez na franquia Monstro
A terceira temporada quebrou uma tradição da antologia. Ian Brennan assumiu sozinho a criação e o roteiro, sem Ryan Murphy dividindo o crédito. Murphy ficou apenas como produtor, deixando Brennan e Max Winkler nas direções. As filmagens começaram em 31 de outubro de 2024, num Halloween simbólico, e rolaram em Chicago a partir de novembro. A estreia caiu em 3 de outubro de 2025, com oito episódios na bagagem.
5. Murphy nunca recebeu uma ligação reclamando das cenas pesadas
Ryan Murphy admitiu choque com a postura de Charlie Hunnam diante do material brutal. Em décadas dirigindo atores em American Horror Story e American Crime Story, era a primeira vez que ninguém ligava para reclamar de uma cena. “Ele nunca me ligou sobre nenhuma cena depois que assinou”, contou o criador, sublinhando que o protagonista topou todas as decisões de roteiro sem questionar limites. Para um set tão pesado, isso é exceção rara.
6. A série inteira é uma reverência tripla a três clássicos do horror
Ian Brennan estrutura a temporada como um espelho dos três filmes que Gein gerou. Psicose (1960) ganha protagonismo via Tom Hollander como Hitchcock e o subplot de Anthony Perkins. O Massacre da Serra Elétrica (1974) aparece nas peles e máscaras humanas. O Silêncio dos Inocentes (1991) volta no terno de pele e na obsessão de transformação. A meta-narrativa transforma Gein no padrinho involuntário do horror moderno.
7. Hitchcock cruza com Anthony Perkins num dos subplots mais ousados
A série dedica um arco inteiro ao casting de Anthony Perkins como Norman Bates. Tom Hollander vive Hitchcock construindo o filme que viraria ícone, enquanto Perkins aparece como jovem ator gay enrustido em Hollywood dos anos 1950, lutando com o personagem que iria defini-lo. É um comentário direto sobre como o trauma de Plainfield foi reciclado pela indústria sem nunca dar crédito ao homem real por trás do mito.

8. Ted Bundy aparece como alucinação, não como fato histórico
Brennan inventa uma cena em que o FBI consulta Gein para caçar Ted Bundy, numa piscadela direta para Mindhunter. Os perfis criminais John Douglas e Robert Ressler aparecem, mas o Primetimer e críticos especializados confirmaram: não existe registro de que Gein tenha ajudado a capturar Bundy nem entrevistado o duo. A série deixa claro que a cena é alucinação do interno de Mendota, mas o disclaimer escapa de muitos espectadores.
9. Vicky Krieps interpreta a “Bruxa de Buchenwald”
Vicky Krieps, indicada ao Globo de Ouro por Spencer, encarna Ilse Koch, a nazista que abasteceu as fantasias mais sórdidas de Gein. Koch ficou famosa por supostamente colecionar abajures de pele humana em Buchenwald. Na série, ela só aparece nas alucinações do açougueiro de Plainfield, já que Koch se suicidou na prisão em 1967. A presença explica visualmente de onde Gein tirou a inspiração para esfolar corpos.
10. Laurie Metcalf assume a mãe Augusta, peça central da psicose
Laurie Metcalf, três vezes vencedora do Emmy por Roseanne, vive Augusta Wilhelmine Gein, a mãe fanática religiosa que moldou a psique do filho até a morte em dezembro de 1945. Augusta proibiu Ed e o irmão Henry de relacionamentos com mulheres, pregava sermões diários e foi o gatilho da fixação que rendeu Norman Bates. Metcalf transforma a matriarca num retrato sufocante, quase teatral, que rouba toda cena em que aparece.
11. Tom Hollander entra como Hitchcock, Olivia Williams como Alma Reville
Tom Hollander, recém-saído de The White Lotus e Feud, vive Alfred Hitchcock dirigindo Psicose. Olivia Williams completa o time como Alma Reville, esposa, montadora e parceira criativa do diretor. O casal aparece pesquisando o caso Gein nos jornais do Wisconsin enquanto adapta o livro de Robert Bloch. Suzanna Son fecha o triângulo principal como Adeline Watkins, a suposta namorada do açougueiro de Plainfield.
12. Murphy já cravou Hunnam em Monstro: A História de Lizzie Borden
Antes mesmo da terceira temporada estrear, Murphy já tinha confirmado Charlie Hunnam para Monstro: A História de Lizzie Borden, a quarta leva da antologia. O movimento entra na tradição do showrunner de fidelizar atores, como fez com Sarah Paulson, Evan Peters, Niecy Nash-Betts, Jessica Lange e Kathy Bates. “Murphy não perdeu tempo em manter Hunnam na sua órbita”, escreveu o Collider sobre a aposta dupla.
13. Ed Gein confessou só duas mortes, mas profanou nove túmulos
Edward Theodore Gein, nascido em 27 de agosto de 1906, foi condenado por dois assassinatos: a dona de bar Mary Hogan em 1954 e a comerciante Bernice Worden em 1957. Investigadores suspeitam de outras sete mortes, mas nunca conseguiram provar. O que Gein admitiu sem hesitar foi a profanação de nove cadáveres de cemitérios locais de Plainfield, escolhidos por se parecerem fisicamente com a mãe morta em 1945.
14. Bernice Worden foi achada pendurada como um cervo abatido
Na noite de 16 de novembro de 1957, policiais entraram no galpão da fazenda Gein com mandado e encontraram Bernice Worden dependurada pelos tornozelos, decapitada e “limpa” como um cervo recém-abatido. Um recibo do anticongelante vendido pra Gein naquela manhã entregou o caso. Dentro da casa principal, a cabeça e o coração da vítima estavam separados, perto de fragmentos de dezenas de outros corpos.

15. A fazenda guardava um corpete de torso humano e nove vulvas numa caixa
O inventário dos investigadores em Plainfield virou material de pesadelo: crânios humanos montados em postes da cama, um corpete feito de torso feminino, nove vulvas guardadas numa caixa de sapato, dez cabeças com pele preservada como máscaras, tigelas talhadas de calotas cranianas e um cinto costurado com mamilos humanos. Quase tudo veio dos nove túmulos profanados nos cinco anos anteriores à prisão.
16. A fazenda dele queimou misteriosamente antes do leilão
A propriedade de 79 hectares de Gein foi avaliada em 4.700 dólares da época, cerca de 52 mil em valores de 2025. Antes do leilão marcado, porém, a casa pegou fogo em 20 de março de 1958 em circunstâncias nunca esclarecidas. Quando perguntado sobre o incêndio, o próprio Gein teria respondido apenas: “pois é”. O sedan Ford dele acabou vendido por 760 dólares, virando atração macabra em feiras de carros americanas.
17. O julgamento veio só em 1968 e ele morreu trancado em Mendota
Embora preso em 1957, Gein só foi a julgamento entre 7 e 14 de novembro de 1968, mais de uma década depois. O juiz decretou culpado pela morte de Bernice Worden, mas reconheceu insanidade legal. Ele cumpriu pena no Central State Hospital for the Criminally Insane e depois foi transferido para o Mendota Mental Health Institute, onde morreu em 26 de julho de 1984, aos 77 anos, de câncer.
18. O irmão Henry morreu num incêndio que cheirou sempre a suspeita
Em 16 de maio de 1944, o irmão mais velho Henry Gein foi encontrado morto após um incêndio nos campos da família. Oficialmente, a causa foi asfixia. Mas o corpo estava numa área sem queimaduras visíveis e com hematomas na cabeça. A polícia nunca investigou a fundo, embora muitos historiadores especulem que Henry foi a primeira vítima de Ed, eliminado por criticar abertamente a obsessão dele com a mãe Augusta.
19. Robert Bloch escreveu Psicose a apenas 56 km da fazenda Gein
Quando o caso explodiu nos jornais de Wisconsin em 1957, o escritor pulp Robert Bloch estava redigindo seu próximo romance a apenas 56 quilômetros de Plainfield. Os paralelos entre a ficção que ele desenvolvia e a notícia real assustaram o próprio autor. Bloch transformou Gein em Norman Bates, e Hitchcock pegou o livro três anos depois para criar Psicose, o filme que reinventou o horror em 1960.
20. Leatherface herdou as máscaras de pele direto da fazenda de Plainfield
Tobe Hooper, diretor de O Massacre da Serra Elétrica (1974), confirmou em entrevistas que o figurino de Leatherface saiu direto do caso Gein. As máscaras de pele humana, os corpos pendurados em ganchos e a decoração com ossos vieram do inventário policial de 1957. Hooper acrescentou só o detalhe da motosserra. O resto, da estética dos cômodos até a família canibal, é Wisconsin rural relido pelo Texas profundo.
21. Buffalo Bill é o clone mais literal de Ed Gein no cinema
Em O Silêncio dos Inocentes (1991), Buffalo Bill costura um terno feminino de pele humana para “virar” mulher, e essa é réplica quase carbono da obsessão real de Gein. O açougueiro de Plainfield tinha leggings, máscaras e até um corpete fabricados com restos humanos, todos reunidos numa tentativa de revestir o corpo na imagem da mãe morta. Thomas Harris fundiu Gein com Ed Kemper e Gary Heidnik para criar o vilão.

22. Deranged (1974) é o filme mais fiel ao Ed Gein real
Lançado no mesmo ano de Massacre da Serra Elétrica, Deranged (1974) é considerado o retrato mais literal do açougueiro de Plainfield. O longa segue um fazendeiro do meio-oeste que preserva o cadáver da mãe e parte pra profanar túmulos antes de matar. Three on a Meathook (1972), Ed and His Dead Mother (1993) com Steve Buscemi, e Child of God (2014) dirigido por James Franco completam o catálogo cinematográfico.
23. A audiência caiu 86% entre a semana 2 e a 4 da temporada
O desempenho de Ed Gein no Netflix começou alto e despencou: 12,2 milhões de visualizações na primeira semana, 20,7 milhões na segunda (chegando ao topo global), 9,5 milhões na terceira e só 2,8 milhões na quarta. A franquia ficou cinco semanas no Top 10, menos que Dahmer e Menendez. Críticos cravaram 22% no Rotten Tomatoes e 28/100 no Metacritic, o pior placar da antologia.
24. Hunnam emplacou Globo de Ouro mesmo com a série destruída pela crítica
Apesar dos 22% no Rotten Tomatoes, Charlie Hunnam conquistou indicações ao Globo de Ouro, SAG Award e Critics’ Choice de melhor ator em minissérie. A produção também levou um Art Directors Guild Award pela direção de arte. O padrão segue Dahmer, em que Evan Peters foi indicado mesmo com a temporada sob fogo cruzado das famílias das vítimas. Atuação como escudo da franquia virou marca registrada da Netflix.
25. Críticos LGBTQ+ acusaram a série de transfobia
A jornalista Drew Burnett Gregory, da Autostraddle, criticou a representação “grotescamente imprecisa” de Gein como crossdresser, dizendo que a escolha não tem respaldo histórico e ressuscita estereótipos transfóbicos. O ângulo é o mesmo que enfrentou Buffalo Bill em 1991. A série soma essa polêmica às reclamações herdadas de Dahmer e Menendez, em que famílias acusaram Murphy de explorar trauma alheio para entreter.
Ed Gein em números
A história do açougueiro de Plainfield virou universo paralelo em livros, filmes e séries. Entretanto, os dados frios continuam sendo o que mais impressiona décadas depois.
- 2 assassinatos confirmados — Mary Hogan (1954) e Bernice Worden (1957)
- 9 túmulos profanados — todos em cemitérios locais de Plainfield, Wisconsin
- 27 anos internado — entre o Central State Hospital e o Mendota Mental Health Institute
- 77 anos de idade — quando morreu de câncer em 26 de julho de 1984
- 3 ícones do horror — Norman Bates, Leatherface e Buffalo Bill saíram direto da fazenda dele
- 22% no Rotten Tomatoes — pior placar da antologia Monstro, mesmo com 20,7 milhões de visualizações no pico
Por trás do choque visual, Monstro: A História de Ed Gein deixa a sensação incômoda de que ainda não terminamos de processar o que aquele homem fez aparecer no cinema. Cada Norman Bates, cada Leatherface, cada Buffalo Bill é uma sombra projetada do galpão de Plainfield. A Netflix vai virar a página com Lizzie Borden em 2026, mas o mito de Wisconsin não sai do imaginário tão cedo.