Bob Iger abriu um bastidor daqueles que mudam a leitura de uma empresa inteira: a Disney chegou muito perto de comprar o Twitter, hoje rebatizado como X, e desistiu na manhã da assinatura. A revelação, feita ao Financial Times, mostra como a Disney pensava sua expansão digital bem além do Disney+.
Resumo rápido
- Bob Iger disse que a Disney quase comprou o Twitter
- A compra seria assinada, mas foi abortada no último momento
- O plano era usar a rede como distribuição global da Disney
Não era capricho de executivo. A ideia era transformar o Twitter em um braço mundial de divulgação, conversa e lançamento para Marvel, Star Wars, Pixar e o resto do império.
Vista hoje, a história parece roteiro de multiverso corporativo. Mas ela ajuda a explicar por que a era Iger virou sinônimo de compras gigantes e ambição sem freio.
A compra quase saiu do papel
Iger contou que a Disney esteve a um passo de fechar o negócio. O recuo veio tarde, já com os contratos na mesa.
“Seria uma distração horrível para a empresa.”
Curto e grosso. A frase resume o medo de colocar uma gigante do entretenimento dentro de uma rede social já turbulenta, com desafios de moderação, tecnologia e cultura interna muito diferentes do mundo Disney.

Tem um detalhe importante aí. Iger não falou de um Twitter comprado para existir sozinho no portfólio. A leitura é outra: ele enxergava a plataforma como canal de distribuição global da Disney.
Na prática, isso significaria trailers, anúncios, eventos ao vivo e campanhas inteiras saindo de dentro de um ecossistema próprio. Não só publicidade. Controle de conversa também.
Por que o Twitter fazia sentido para a Disney
Naquele momento, a lógica era até fácil de entender. O Twitter já era a praça pública da cultura pop, onde trailer virava trend e final de temporada explodia em tempo real.
Para uma empresa com Marvel, Lucasfilm, Pixar e parques temáticos, comprar essa vitrine tinha valor bruto. A Disney não dependeria só de mídia paga ou de algoritmos alheios para empurrar seus lançamentos.
No Brasil, isso teria mexido até com a forma como o público recebe campanhas de cinema e streaming. Trailer de filme da Marvel, teaser de Star Wars e evento do Disney+ poderiam nascer, circular e dominar o feed dentro da mesma casa.
Faz sentido. A Disney sempre foi fortíssima em distribuição. Primeiro no cinema, depois na TV, depois no streaming. Ter uma rede social própria seria a camada que faltava nesse pacote.
Só que rede social não funciona como estúdio. Ela exige reação em segundos, lida com crise todo dia e vive de conflito. Esse tipo de ambiente combina pouco com uma empresa obcecada por marca, segurança e controle.
A era Iger foi feita de compras grandes
Nada disso surgiu do nada. O perfil oficial de Bob Iger no site da Disney lembra a sequência de aquisições que redefiniu a empresa entre 2005 e 2020.
| Ano | Aquisição | O que trouxe para a Disney |
|---|---|---|
| 2006 | Pixar | Reforço criativo para animação e franquias |
| 2009 | Marvel | Um universo bilionário de heróis |
| 2012 | Lucasfilm | Star Wars e Indiana Jones no catálogo |
| 2019 | Fox | Expansão pesada em cinema, TV e biblioteca |
Esse histórico muda tudo na leitura da notícia. Quando Iger diz que quase levou o Twitter, ele não está falando de um capricho isolado. Está falando do mesmo executivo que comprou Marvel e Lucasfilm.
Mais: ele também comentou que a Disney chegou a discutir outros alvos de peso, incluindo Apple e James Bond. Sobre a Apple, Iger foi direto:
“Nós discutimos isso internamente e tivemos algumas conversas com a Apple sobre o assunto, mas nunca avançou. A Apple não demonstrou muito interesse.”
Isso desenha uma Disney bem mais agressiva do que muita gente lembra. Não era só comprar personagens. Era tentar cercar tecnologia, distribuição e propriedade intelectual ao mesmo tempo.
O Twitter virou X — e a Disney escapou de quê?
Olhar para o estado atual do X deixa essa história ainda mais curiosa. A plataforma acabou nas mãos de Elon Musk, mudou de nome e passou anos mergulhada em turbulência pública, comercial e política.
Aí o recuo da Disney envelhece bem. Integrar uma rede social desse porte ao padrão Disney seria um pesadelo operacional. Moderação, discurso tóxico, anunciantes nervosos e pressão política não combinam com castelo, super-herói e parque temático.
Nem todo negócio que parece genial no PowerPoint sobrevive à vida real. E comprar o Twitter teria obrigado a Disney a administrar um tipo de caos que ela nunca dominou.
O que sobra para quem acompanha Disney, Marvel e Star Wars
Para o fã, a revelação é menos sobre nostalgia corporativa e mais sobre o presente. Ela explica a cabeça de Iger quando a Disney acelerou o Disney+, fortaleceu ESPN e apostou em controle direto da audiência.
Sem o Twitter, a empresa seguiu pelo caminho mais previsível: possuir marcas gigantes e empurrá-las por canais próprios, parceiros e streaming. Menos risco. Menos barulho. Bem mais cara de Disney.
Mesmo assim, fica a pulga. A empresa que comprou Pixar, Marvel, Lucasfilm e Fox deixou passar justamente a aquisição que poderia ter mudado toda a sua guerra digital — e hoje ninguém sabe se isso foi prudência ou a chance mais estranha que Bob Iger abandonou.