Spielberg e 007: A porta que Cubby Broccoli fechou

Por Leandro Lopes 11/06/2026 às 10:36 6 min de leitura
Spielberg e 007: A porta que Cubby Broccoli fechou
6 min de leitura

Steven Spielberg tentou entrar em 007 / James Bond no embalo de Tubarão (Jaws) e ouviu “não” de Albert “Cubby” Broccoli. Tentou de novo quando 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker) quis pegar emprestadas as cinco notas de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind). Levou a mesma resposta. Essa história antiga voltou a circular agora porque 007 está outra vez em fase de reinvenção — e porque imaginar Bond nas mãos de Spielberg ainda mexe com qualquer fã de cinema.

Resumo rápido

  • Spielberg ofereceu seus serviços a Cubby Broccoli após Tubarão
  • Broccoli recusou duas tentativas do diretor para comandar 007
  • O caso expõe o controle criativo rígido da era clássica de Bond

Duas tentativas, duas portas fechadas

Spielberg nunca escondeu que queria dirigir Bond. O desejo vinha desde 007 Contra o Satânico Dr. No (Dr. No), o filme que abriu a franquia no cinema em 1962.

“Procurei Cubby depois que Tubarão virou um grande sucesso. Sempre quis fazer um filme de James Bond desde o dia em que vi 007 Contra o Satânico Dr. No, então liguei para Cubby depois de Tubarão e me ofereci. Eu disse: ‘Se precisar de um diretor, eu adoraria dirigir um’. E ele disse não.”

O timing chama atenção. Tubarão, lançado em 1975, mudou a lógica do blockbuster moderno e transformou Spielberg num nome enorme em Hollywood. Mesmo assim, isso não bastou para entrar na “família Bond”.

Depois veio a segunda tentativa. Quando a produção de 007 Contra o Foguete da Morte quis usar as famosas cinco notas de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Spielberg enxergou uma nova brecha.

“Eu disse: ‘Vou fazer um acordo com você. Dou permissão para usar as cinco notas se você me deixar dirigir um filme de Bond’. E ele disse não. Mas eu dei a permissão mesmo assim.”

montagem conceitual de Steven Spielberg olhando para um cartaz clássico de 007, clima de “o filme que nunca aconteceu”
montagem conceitual de Steven Spielberg olhando para um cartaz clássico de 007, clima de “o filme que nunca aconteceu” (Reprodução)

É uma anedota ótima porque parece impossível hoje. Um dos diretores mais influentes do cinema comercial levou dois foras de uma franquia que, décadas depois, passou a ser disputada por autores de primeira linha.

Spielberg ainda deixou claro que a recusa foi constante, não pontual.

“Então eles me recusaram de forma consistente. Pelo menos o Broccoli recusou. Ele nunca explicou por que não me deixava entrar para a família Bond.”

Os filmes que se cruzaram nessa história

Filme Ano Papel no caso
Tubarão 1975 Explodiu Spielberg no mercado e motivou a primeira oferta para dirigir Bond
Contatos Imediatos do Terceiro Grau 1977 Suas cinco notas viraram moeda de negociação com a produção de Moonraker
007 Contra o Foguete da Morte 1979 Abriu a segunda tentativa de Spielberg de entrar em 007
007 Contra o Satânico Dr. No 1962 Foi o primeiro Bond visto por Spielberg e acendeu o interesse do diretor

Quem quiser revisitar o início dessa linha do tempo pode checar a página oficial da franquia no site de 007 e o histórico de Tubarão no Rotten Tomatoes. Não é só nostalgia. É contexto para entender por que esse “não” ainda repercute.

Por que Cubby Broccoli travou Spielberg

Nunca houve explicação pública de Broccoli. Então é preciso separar fato de leitura histórica. O fato é simples: ele recusou Spielberg duas vezes.

A leitura mais plausível passa por controle criativo. Cubby Broccoli tratava Bond como uma marca muito protegida, com tom, ritmo e até senso de humor bem calibrados. Diretor ali não era dono do brinquedo.

Spielberg, já no fim dos anos 1970, era o oposto disso. Tinha assinatura forte, gosto por espetáculo visual e uma energia muito americana de aventura. Em Bond, Broccoli parecia preferir cineastas alinhados ao molde da casa.

Isso ajuda a entender por que a negativa soa menos pessoal e mais curatorial. Broccoli talvez não quisesse um gênio mexendo demais na fórmula. Queria Bond continuando a ser Bond.

Roger Moore em cena espacial de 007 Contra o Foguete da Morte, destacando o tom extravagante da era clássica da franquia
Roger Moore em cena espacial de 007 Contra o Foguete da Morte, destacando o tom extravagante da era clássica da franquia (Reprodução)

O Bond de Spielberg existiu só na imaginação

Mas dá para imaginar, claro. E o exercício é divertido.

Um Bond dirigido por Spielberg provavelmente teria suspense mais afiado, cenas de ação com geografia mais clara e aquele senso de maravilhamento que ele domina como poucos. Pense em perseguição com a precisão de Indiana Jones e tensão de Tubarão.

Ao mesmo tempo, talvez fosse “Spielberg demais” para o padrão de 007 daquela época. 007 Contra o Foguete da Morte já flertava com exagero e ficção científica. Colocar Spielberg ali poderia empurrar a franquia para um blockbuster ainda mais grandioso.

Seria melhor? Não dá para cravar. Seria diferente, sem dúvida. E esse é justamente o fascínio da história.

Por que esse bastidor volta agora

007 está outra vez num momento delicado. Desde a despedida de Daniel Craig, a franquia vive entre especulações sobre novo ator, novo diretor e o peso crescente da Amazon MGM Studios no futuro da marca.

Nesse cenário, qualquer bastidor sobre “quase Bonds” ganha força. Não por saudosismo vazio, mas porque mostra um padrão antigo: 007 sempre seduziu nomes gigantes, enquanto a família Broccoli historicamente escolhia com muito mais cautela do que o hype pedia.

No Brasil, esse tipo de história pega porque junta duas paixões locais. De um lado, Spielberg, que virou sinônimo de cinema de evento. Do outro, Bond, uma franquia que atravessou TV aberta, locadora, Blu-ray e streaming sem perder esse status de ritual.

Spielberg e 007 — foto de divulgação
Spielberg e 007 — foto de divulgação (Reprodução)

Faz diferença prática hoje? Ainda não. Mas muda a leitura do passado e do futuro. Se Cubby Broccoli achava Spielberg “grande demais” para 007, a próxima fase da franquia vai abrir espaço para um autor com esse tamanho — ou continuar tratando controle de marca como prioridade máxima?

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