Perry Mason foi cancelada cedo demais na HBO

Por Leandro Lopes 31/05/2026 às 22:51 5 min de leitura Atualizado: 01/06/2026
Perry Mason foi cancelada cedo demais na HBO
5 min de leitura

Perry Mason voltou ao radar como aquelas séries da HBO que muita gente ignorou na estreia e depois percebeu tarde demais. São duas temporadas, 16 episódios e uma atuação de Matthew Rhys que merece bem mais conversa do que recebeu em 2020.

Antes de tudo, um ajuste importante: não é uma minissérie “em duas partes”. É uma série de duas temporadas, cancelada pela HBO em 2023. E isso muda bastante o jeito de entrar nela.

Não é o Perry Mason que muita gente lembra

Quem conhece o nome pela TV clássica vai estranhar de cara. A versão da HBO joga o personagem nos anos 1930, em plena Grande Depressão, e troca o formato procedural limpo por um noir pesado, sujo e bem mais melancólico.

Mason aqui ainda está se formando. Ele carrega trauma da Primeira Guerra Mundial, bebe demais, tropeça nas próprias escolhas e tenta sobreviver numa Los Angeles corroída por dinheiro, racismo e um sistema judicial que fabrica culpados com facilidade assustadora.

‘Perry Mason’ Deserved To Continue Beyond Two Seasons
‘Perry Mason’ Deserved To Continue Beyond Two Seasons (Reprodução)

Funciona porque a série não trata o tribunal como palco de genialidade instantânea. Trata como arena de desgaste. Cada caso puxa um pedaço da cidade junto, e a ambientação de época não está ali só para enfeite.

Ficha técnica Detalhes
Título original Perry Mason
Criação Rolin Jones
Baseado em Personagem criado por Erle Stanley Gardner
Direção Tim Van Patten, Minkie Spiro e outros
Elenco principal Matthew Rhys, Juliet Rylance, Chris Chalk, John Lithgow, Tatiana Maslany, Shea Whigham, Justin Kirk
Gênero Drama criminal, mistério, noir, drama de época
Estreia original 21/06/2020
Encerramento 2023
Temporadas 2
Episódios 16
Duração média 50 a 60 minutos
Plataforma no Brasil Max
Classificação TV-MA

Matthew Rhys segura o noir no olhar

Rhys já tinha feito um trabalho enorme em The Americans. Em Perry Mason, ele vai para outro lugar. Menos explosão, mais desgaste. O personagem parece cansado antes mesmo de a cena começar.

É esse cansaço que vende a série. Não tem pose de detetive infalível. Tem um homem quebrado tentando juntar fatos, dinheiro e dignidade ao mesmo tempo.

Ao redor dele, o elenco ajuda muito. John Lithgow dá peso imediato a E.B. Jonathan. Chris Chalk transforma Paul Drake em algo bem mais complexo do que o ajudante funcional que muita série usaria sem pensar duas vezes.

Tatiana Maslany também marca a primeira temporada com uma presença difícil de esquecer. Já a segunda amplia o espaço de personagens negros e aprofunda a crítica ao racismo estrutural, sem virar discurso decorado.

Vale? Se você gosta de série de crime que respeita silêncio, textura e atmosfera, vale bastante. Se a expectativa é ver um advogado resolvendo tudo com frase de efeito, aí é outra viagem.

A HBO cortou quando a série estava esquentando

O incômodo maior vem daí. A segunda temporada não repete a primeira no piloto automático. Ela aperta o foco na desigualdade racial e mostra jovens negros sendo empurrados para o papel de bode expiatório por uma engrenagem que já decidiu quem vai perder.

É um avanço de tema e de maturidade. Também era o momento em que a série parecia mais pronta para virar uma grande antologia criminal da HBO. A terceira temporada fazia sentido. Não veio.

A recepção crítica tampouco era o problema central. As páginas da série no Rotten Tomatoes e no Metacritic mostram uma resposta forte desde a estreia, especialmente pelo clima noir, pela produção caprichada e pelo trabalho de Rhys.

Não virou febre de internet. E esse detalhe pesa muito hoje. A HBO vinha reorganizando catálogo, custo e prioridade de audiência, e Perry Mason acabou entrando na lista das boas séries que não ganharam tamanho cultural suficiente para continuar.

Foi uma pena. Porque ela tinha identidade própria num catálogo cheio de drama criminal que às vezes parece feito na mesma máquina.

Um clássico refeito com mais sujeira e menos nostalgia

Perry Mason não nasceu na HBO. O personagem vem dos romances de Erle Stanley Gardner, passou por rádio, cinema e ganhou sua encarnação mais famosa na série estrelada por Raymond Burr, lá em 1957.

A sacada do reboot foi não competir com essa memória no mesmo terreno. Em vez do advogado pronto, a série escolheu a origem. Em vez da segurança do herói, escolheu falha, trauma e ambiguidade moral.

Na prática, ela fica mais perto de The Night Of e True Detective do que de um drama jurídico tradicional. Tem tribunal, claro. Mas o coração está no apodrecimento da cidade.

Na Max, ainda dá tempo de descobrir

No Brasil, Perry Mason está no ecossistema da Max, casa natural das produções HBO por aqui. Como a série já terminou, a experiência é simples: duas temporadas, 16 episódios e uma maratona que cabe em dois fins de semana mais puxados.

É pouca coisa para uma produção com essa escala. E talvez esse seja o melhor argumento para começar agora: não existe enrolação de seis temporadas, nem risco de cair de qualidade no meio do caminho.

O gosto amargo vem depois. Você termina rápido, percebe o tamanho do que a HBO tinha nas mãos e fica com a mesma pergunta que acompanha tantas séries boas canceladas cedo: como um drama desse nível foi parar na pilha das descobertas tardias?