O Estranho que Nós Amamos entra na Netflix com Sofia Coppola

Por Rafael Duarte 28/06/2026 às 11:41 8 min de leitura
O Estranho que Nós Amamos entra na Netflix com Sofia Coppola
8 min de leitura

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled) entra na Netflix em 1º de julho e recoloca um dos filmes mais cruéis de Sofia Coppola no radar do streaming brasileiro. Estrelado por Colin Farrell, Nicole Kidman e Kirsten Dunst, o thriller de 2017 mistura desejo, manipulação e violência abafada em só 93 minutos.

Resumo rápido

  • O Estranho que Nós Amamos estreia na Netflix em 1º de julho
  • Filme é dirigido e roteirizado por Sofia Coppola
  • Elenco reúne Colin Farrell, Nicole Kidman e Kirsten Dunst

Não é terror de susto. É pior.

Durante a Guerra Civil americana, um soldado ferido é acolhido por mulheres isoladas em um internato no sul dos Estados Unidos. O cuidado inicial logo vira disputa de poder, desejo reprimido e uma convivência que apodrece por dentro.

Esse retorno ao catálogo também chama atenção porque o longa ocupa um lugar curioso dentro da filmografia de Coppola: é ao mesmo tempo um filme de época clássico na superfície e um estudo frio sobre relações contaminadas por carência, hierarquia e ressentimento. Em vez de grandes reviravoltas ou sustos fáceis, o que o sustenta é a corrosão lenta do ambiente. Cada gesto educado parece esconder uma ameaça, e cada tentativa de civilidade só adia o conflito.

Por que esse filme voltou ao radar agora

Colin Farrell vive um momento forte. Depois de Batman, Pinguim e Os Banshees de Inisherin, até os trabalhos menores do ator ganharam nova atenção.

E este aqui está longe de ser um papel automático. Farrell quase não precisa levantar a voz para parecer ameaçador, e o filme inteiro trabalha nesse registro de tensão baixa, mas constante.

A chegada à Netflix ajuda porque muita gente conhece o ator pelo peso físico de produções recentes. Em O Estranho que Nós Amamos, ele troca explosão por ambiguidade, e isso incomoda mais.

Há também um fator de redescoberta ligado à própria Sofia Coppola. Nos últimos anos, sua obra voltou a ser debatida com mais seriedade, especialmente pela forma como ela filma espaços fechados, privilégios, solidão e códigos sociais rígidos. Nesse sentido, O Estranho que Nós Amamos funciona quase como uma versão mais venenosa de temas que ela vinha explorando havia décadas, só que agora colocados dentro de uma estrutura de suspense mais seca e hostil.

O dado principal por trás desse relançamento no streaming é simples, mas importante: filmes médios, sofisticados e pouco ruidosos costumam ganhar uma segunda vida quando deixam o circuito de nicho e chegam ao consumo doméstico. Um thriller psicológico de 93 minutos, com elenco famoso e assinatura de autora reconhecida, tende a circular muito melhor em plataforma do que circulou em parte dos cinemas. Isso muda a recepção: o que antes parecia um título “menor” na temporada pode virar descoberta tardia para um público que hoje busca precisamente histórias compactas, tensas e sem gordura narrativa.

Bonito de ver. Péssimo de confiar.

O filme entra no campo do gótico sulista, subgênero marcado por repressão, decadência, religiosidade e violência escondida sob a aparência civilizada. Parece drama de época. Logo vira um jogo venenoso entre quem observa e quem deseja.

Sofia Coppola filma tudo com delicadeza quase enganosa. Cortinas claras, jardim bonito, luz suave. Só que a paz visual contrasta com um ambiente onde cada olhar carrega ciúme, interesse e cálculo.

Quem gosta de O Sacrifício do Cervo Sagrado, Os Outros ou A Criada vai reconhecer o clima. Não pela história, mas pela sensação de que algo muito errado já aconteceu antes mesmo da primeira explosão.

A comparação com A Criada, de Park Chan-wook, ajuda especialmente a entender o jogo de superfície. Nos dois casos, a mise-en-scène elegante não suaviza a perversidade; ela a torna mais afiada. Já em relação a Os Outros, o parentesco está no uso da casa como organismo emocional, onde corredores, quartos e janelas parecem reorganizar a tensão entre os personagens. E, como em O Sacrifício do Cervo Sagrado, o desconforto nasce menos de um vilão evidente do que de um desequilíbrio moral que contamina todo mundo.

O desenho visual reforça isso com escolhas criativas muito calculadas. Coppola evita excessos melodramáticos, reduz a trilha musical ao mínimo e deixa que o som ambiente, o silêncio e a etiqueta entre os personagens façam o trabalho de suspense. A câmera observa mais do que explica. Em vez de sublinhar a perversidade da situação, o filme confia no constrangimento produzido pela proximidade física dentro de um espaço fechado. O resultado é um thriller em que a ameaça não invade a casa: ela se instala aos poucos no modo como aquelas pessoas passam a se olhar.

O remake muda o centro da história

A versão de 2017 refaz o longa de 1971 dirigido por Don Siegel, também lançado aqui como O Estranho que Nós Amamos. Na leitura anterior, com Clint Eastwood, o soldado ocupava o centro da narrativa.

Coppola mexe nisso. O homem continua importante, mas o foco passa para as mulheres da casa e para a dinâmica de desejo, humilhação e controle entre elas. O ponto de vista muda. O peso moral também.

Essa releitura encaixa bem na carreira da diretora. Quem viu As Virgens Suicidas e Maria Antonieta sabe como Coppola filma isolamento e feminilidade sem transformar tudo em discurso mastigado.

O contexto histórico da obra ajuda a entender por que esse deslocamento de foco importa. O filme de Siegel saiu no início dos anos 1970, período em que Hollywood ainda tratava esse tipo de narrativa com forte centralidade masculina, mesmo quando o enredo dependia de personagens femininas complexas. Já a adaptação de Coppola surge em outra era, com maior atenção a quem detém o olhar e a quem a narrativa escolhe proteger ou expor. Não é apenas um remake estético: é uma revisão de perspectiva sobre a mesma situação básica.

Essa mudança altera até a leitura do soldado vivido por Farrell. Em vez de figura dominante desde o começo, ele vira catalisador de tensões já existentes entre as mulheres do internato. Isso torna o filme menos interessado em sedução no sentido tradicional e mais interessado em fragilidade institucional. A casa já era um espaço de repressão, disciplina e renúncia antes da chegada dele. O intruso não cria o problema sozinho; ele revela fissuras que a rotina e a moral religiosa mantinham contidas.

Também por isso o longa conversa com o romance original de Thomas Cullinan sem simplesmente reproduzi-lo. Coppola simplifica certos elementos, enxuga incidentes e privilegia atmosfera. É uma decisão coerente com sua filmografia, que costuma trabalhar mais por sensação do que por excesso de explicação psicológica. Alguns espectadores sentiram falta de mais contexto ou de conflitos mais explicitados, mas justamente essa economia narrativa torna o filme mais seco, mais estranho e mais desconfortável.

Na recepção crítica, a abordagem funcionou bem. O filme foi exibido em Cannes e rendeu a Sofia Coppola o prêmio de melhor direção, feito relevante num festival historicamente pouco generoso com diretoras nessa categoria. A crítica elogiou o controle formal, a concisão e a maneira como o remake evitava parecer mera atualização preguiçosa. Houve, por outro lado, debates sobre escolhas de adaptação e sobre o recorte mais contido da diretora em relação ao material original, o que manteve o longa em discussão para além do lançamento.

Entre o público, a reação foi mais dividida, o que faz sentido para um filme vendido pelo elenco de prestígio, mas construído em chave anti-espetáculo. Quem entrou esperando suspense mais explosivo ou drama romântico encontrou um estudo de hostilidade silenciosa. Já quem gosta de filmes em que a atmosfera pesa mais que a trama geralmente viu no longa uma das obras mais rigorosas de Coppola. Essa divisão, longe de enfraquecê-lo, ajudou a consolidar sua reputação de título incômodo, daqueles que ganham valor com o tempo e com a revisão.

Ficha técnica de O Estranho que Nós Amamos

Item Detalhe
Título original The Beguiled
Direção Sofia Coppola
Roteiro Sofia Coppola
Base literária The Beguiled (1966), de Thomas Cullinan
Elenco principal Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning
Personagens centrais Farrell é o Corporal McBurney; Kidman vive Miss Martha; Dunst é Edwina
Gênero Drama, thriller psicológico, gótico sulista
Duração 93 minutos
Estreia original 23/06/2017, nos EUA
Distribuição American Zoetrope / Focus Features

Trailer