Onde Assistir Leviatã no Brasil
Sinopse
Numa pequena cidade isolada da Península de Kola, no extremo norte da Rússia, Nikolai (Aleksei Serebryakov) é mecânico e dono de uma casa modesta à beira do Mar de Barents. A casa fica em terreno com vista privilegiada — exatamente o que o prefeito corrupto Vadim (Roman Madyanov) precisa para um projeto pessoal. A prefeitura instaura processo de desapropriação por preço irrisório, e Nikolai recusa.
Cercado por uma esposa em crise (Elena Lyadova), um filho adolescente que o despreza e um sistema judicial calcado no compadrio entre prefeitos, juízes e padres ortodoxos, Nikolai chama um amigo advogado de Moscou (Vladimir Vdovichenkov) para enfrentar o caso. O advogado traz documentos comprometedores — mas em uma cidade onde Igreja, Estado e crime são engrenagens da mesma máquina, ter razão jurídica não significa quase nada.
Dirigido por Andrey Zvyagintsev e escrito com Oleg Negin, Leviatã foi inspirado no caso real do americano Marvin Heemeyer e nos relatos bíblicos de Jó. Levou o prêmio de melhor roteiro em Cannes 2014, venceu o Globo de Ouro de filme estrangeiro e foi indicado ao Oscar.
Análise — Notícias Flix
Leviatã é uma das obras mais devastadoras do cinema russo deste século — e isso não é elogio fácil em uma cinematografia que tem Aleksandr Sokurov e os herdeiros de Tarkovski ainda em atividade. Andrey Zvyagintsev, diretor que já havia chamado atenção com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza, 2003), entrega aqui filme de fôlego maior: drama particular que opera simultaneamente como retrato político, parábola religiosa e tragédia clássica.
O título não é decorativo. Leviatã é a criatura bíblica do Livro de Jó, o monstro marinho que prova a impotência humana diante de Deus. Também é o livro de Thomas Hobbes sobre o Estado absoluto, no qual o cidadão entrega liberdade em troca de proteção. Zvyagintsev costura as duas referências sem didatismo: a baleia gigante que vemos encalhada na praia de Kola é símbolo, mas também paisagem real, e a prefeitura que esmaga Nikolai não precisa ser metáfora — é prefeitura mesmo.
Aleksei Serebryakov constrói Nikolai como sujeito nem totalmente vítima nem totalmente herói — é homem comum, mecânico que bebe vodka, marido distraído, pai impaciente. A esposa Lília (Elena Lyadova, em performance magnética) carrega o subtexto emocional do filme: ela é o ponto onde o drama doméstico encontra a violência institucional. Roman Madyanov dá ao prefeito Vadim a oleosidade exata de político de cidade pequena que tem padre na agenda e bilhete falso na gaveta.
A fotografia de Mikhail Krichman é capítulo à parte. A paleta cinza-azulada do Ártico russo, as ruínas de igrejas soviéticas, os esqueletos de barcos enferrujando na praia — cada plano é composto como pintura, sem virar exibição estética. Quando finalmente vemos uma celebração religiosa ortodoxa em que o bispo prega virtude enquanto o público sabe da farsa em curso, o filme dá seu golpe mais duro: a Igreja como engrenagem do mesmo sistema que destrói Nikolai.
O ritmo é exigente. As 140 minutos pedem paciência cinéfila, e a tragédia fecha sem catarse — é desfecho calvinista, sem perdão. Mas Leviatã é cinema que cresce na memória depois da projeção, daqueles que reorganizam o jeito de ver o próprio entorno político. Não à toa, a BBC elegeu o 47º melhor filme do século XXI em 2016. É consenso crítico merecido.
Pontos fortes
- Aleksei Serebryakov sustenta Nikolai como homem comum, sem heroísmo barato
- Fotografia de Mikhail Krichman compõe a paisagem ártica como pintura
- Roteiro tece Jó, Hobbes e Marvin Heemeyer sem didatismo
- Crítica ao tripé Estado-Igreja-crime na Rússia de Putin é cirúrgica
- Elena Lyadova e Roman Madyanov entregam coadjuvantes magnéticos
Pontos fracos
- 140 minutos exigem paciência cinéfila e ritmo contemplativo
- Tragédia fecha sem catarse — desfecho duro pode afastar parte do público
- Densidade simbólica pede atenção a referências bíblicas e políticas
- Câmera lenta e silêncios podem ser entendidos como arrastados fora do circuito de festival
Bilheteria
- Orçamento
- US$ 4 mi
- Arrecadação mundial
- US$ 4 mi
- Retorno
- 1,1× o orçamento
Ficha técnica
- Roteiro
- Oleg Negin
- Fotografia
- Михаил Кричман
- Trilha sonora
- Андрей Дергачёв
- Edição
- Anna Mass
- Duração
- 140 min
Curiosidades sobre Leviatã
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Inspirado no caso real de Marvin Heemeyer
Zvyagintsev ouviu nos EUA a história do americano Marvin Heemeyer, que em 2004 destruiu prédios públicos com uma escavadeira blindada após anos de disputa com a prefeitura local. A ideia inicial era filmar a história nos EUA antes de Zvyagintsev transpor o conflito para a Rússia.
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Prêmio de melhor roteiro em Cannes 2014
Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin venceram o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 2014, em mostra competitiva que disputou a Palma de Ouro daquele ano.
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Globo de Ouro e indicação ao Oscar
O filme venceu o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira em 2015 e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro no 87º Academy Awards, representando a Rússia.
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Filmado na Península de Kola, no Ártico
A produção rodou nas cidades de Kirovsk, Monchegorsk e Olenegorsk, perto de Murmansk, na Península de Kola — região ártica russa que dá ao filme sua paisagem desolada característica.
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Eleito 47º melhor filme do século XXI pela BBC
Em enquete crítica internacional realizada pela BBC em 2016 com 177 críticos, Leviatã foi eleito o 47º melhor filme produzido entre 2000 e 2015, consolidando-se como referência do cinema do século XXI.
Datas-chave
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Lançamento mundial
Elenco principal