Poucos filmes de 2025 chegaram com tanto estardalhaço quanto a aposta de Joseph Kosinski sobre quatro rodas. O que parecia mais um drama esportivo virou o maior fenômeno de bilheteria da Apple, faturando centenas de milhões e arrastando público para os cinemas IMAX como nenhum lançamento original do ano. Por trás da velocidade na tela, porém, existe um arsenal de decisões malucas que pouca gente conhece.
Tem câmera improvisada com peças de celular, piloto heptacampeão revisando o roteiro linha por linha e uma equipe de mentira competindo no meio do grid de verdade. Cada bastidor ajuda a entender por que esse longa virou conversa obrigatória entre os cinéfilos brasileiros.
Antes de acelerar, conheça os segredos guardados no paddock
Reunimos os fatos mais surpreendentes da produção, do orçamento estratosférico aos truques de engenharia que enganaram até quem entende de automobilismo. Alguns pertencem ao roteiro, outros ao set de filmagem e outros ainda ao circo real da Fórmula 1 que serviu de cenário. Aperte o cinto, porque a primeira curva já revela um detalhe que muita gente jurava ser efeito visual.
1. A equipe fictícia entrou de verdade no grid real
A escuderia APXGP, sigla de Apex Grand Prix, foi inserida como uma décima primeira equipe num grid que, na vida real, tinha apenas dez. A produção montou boxes, garagem, paddock e até estrutura de hospitalidade próprios, encaixados nos Grandes Prêmios oficiais sem atrapalhar as corridas. Os carros saíam para a pista nos intervalos das sessões, transformando a equipe de mentira numa presença física totalmente crível. Para quem assistia de longe, era impossível distinguir a ficção do campeonato verdadeiro acontecendo ao lado.
2. Tudo foi gravado dentro dos Grandes Prêmios de 2023 e 2024
A produção não recriou os circuitos num estúdio: filmou durante os Grandes Prêmios reais das temporadas de 2023 e 2024, com aval da FIA. Sonny Hayes e seu carro entravam em pistas verdadeiras como Silverstone, Monza, Spa-Francorchamps, Suzuka e Yas Marina. Cada fim de semana de corrida virava também um set de cinema, com a equipe registrando largadas, pódios e disputas autênticas. Essa decisão deu ao filme uma textura impossível de fabricar, porque o público do GP estava lá, de verdade, ao fundo das cenas.
3. O orçamento beirou os US$ 300 milhões
F1 nasceu caro e não escondeu isso. O orçamento ficou estimado entre US$ 200 e US$ 300 milhões, e apenas o salário de Brad Pitt teria chegado a US$ 30 milhões. A Apple desembolsou em torno de US$ 130 a 140 milhões só para distribuir, enquanto os patrocínios renderam pelo menos US$ 40 milhões. As câmeras a bordo, por sua vez, geraram cerca de 5 mil horas de imagens para o montador peneirar, um dos maiores volumes brutos já capturados para um filme de corrida.
4. Brad Pitt pilotou de verdade por cerca de dois anos
Nada de dublê de corpo inteiro escondendo o rosto nas curvas. Brad Pitt insistiu em dirigir o quanto os seguros permitissem, em busca de autenticidade total. Ele e Damson Idris treinaram por três meses, começando em carros de Fórmula 3 e subindo para Fórmula 2, com testes no circuito Paul Ricard, na França. No tapete vermelho da estreia, o ator resumiu o esforço com bom humor: acabaram dirigindo por cerca de dois anos. Vale lembrar que Pitt estava com 61 anos durante a produção, o que torna a proeza ainda mais impressionante.
5. Joseph Kosinski reuniu o time inteiro de Top Gun: Maverick
O diretor não mexeu numa equipe que vinha de um sucesso retumbante. Joseph Kosinski chamou de volta o produtor Jerry Bruckheimer, o diretor de fotografia Claudio Miranda e o compositor Hans Zimmer para reaplicar a fórmula de ação prática e imersiva, agora trocando os caças por monopostos. A filosofia se manteve idêntica: câmeras dentro do cockpit e atores fazendo o máximo possível de cenas reais, sem depender de telas verdes para vender a sensação de velocidade. O resultado prova que a receita funciona em qualquer pista.
6. Damson Idris é o novato arrogante que vira parceiro
Damson Idris, conhecido pela série Snowfall, vive Joshua Pearce, o jovem piloto que divide a equipe APXGP com Sonny Hayes. Pearce começa como rival arrogante de Pitt antes de evoluir para parceiro confiável dentro da história. Idris passou exatamente pelo mesmo treinamento intensivo em Fórmula 3 e Fórmula 2 no Paul Ricard, sem atalhos. O desempenho rendeu reconhecimento concreto: ele foi premiado pela African-American Film Critics Association como Melhor Ator Coadjuvante de 2025, mostrando que o esforço apareceu na tela.
7. A Apple inventou uma câmera com peças de iPhone
As câmeras a bordo dos carros de Fórmula 1 servem para a transmissão de TV, mas não entregam qualidade de cinema. Diante do problema, a Apple decidiu inventar um módulo próprio usando peças de iPhone. O sistema reaproveitava o sensor de um iPhone 15 Pro, um processador da linha A, bateria de iPhone e um filtro de densidade neutra para controlar a luz, gravando em ProRes no formato LOG. Tudo cabia no mesmo espaço da câmera de transmissão original e ainda aguentava o estresse brutal de um carro em alta velocidade.

8. Lewis Hamilton revisou o roteiro curva por curva
O heptacampeão Lewis Hamilton não só aparece no filme, como assina a produção ao lado de Bruckheimer e Pitt. Seu papel, no entanto, foi de consultor técnico quase obsessivo. De acordo com Kosinski, Hamilton entrava em reuniões por Zoom entre as corridas para revisar o roteiro linha por linha, curva por curva, composto de pneu por composto de pneu, garantindo realismo absoluto. Além disso, ajudou Pitt e Idris a afinar a pilotagem, transformando atores em algo bem próximo de pilotos de verdade na tela.
9. Vinte e um pilotos reais aparecem como eles mesmos
O grid de F1 é o verdadeiro, sem maquiagem. Cerca de 21 pilotos reais aparecem interpretando a si próprios, incluindo Max Verstappen, Charles Leclerc, Fernando Alonso, George Russell, Carlos Sainz, Lando Norris e Oscar Piastri, além do próprio Lewis Hamilton. Eles foram filmados nos paddocks e nas corridas reais dos Grandes Prêmios de 2023 e 2024, dando à ficção a textura de um fim de semana autêntico da categoria. Largadas, pódios e disputas acontecem de fato, com a APXGP costurada no meio de tudo.
10. A greve de Hollywood interrompeu as filmagens
A produção começou em julho de 2023 e logo foi atravessada pela greve do sindicato de atores SAG-AFTRA, que paralisou Hollywood naquele ano. Por causa disso, as filmagens precisaram ser retomadas e estendidas para acompanhar a temporada de 2024 da Fórmula 1. Esse contratempo, inclusive, explica por que o calendário se alongou tanto. A estreia mundial só aconteceu em 16 de junho de 2025, no Radio City Music Hall, em Nova York, com lançamento nos cinemas dos Estados Unidos em 27 de junho de 2025.
11. Sonny Hayes carrega um trauma de 1993
O personagem de Brad Pitt, Sonny Hayes, é um prodígio que abandonou a Fórmula 1 após um acidente que encerrou sua carreira no Grande Prêmio da Espanha de 1993. Trinta anos depois, ele retorna para salvar a equipe falida do velho amigo Rubén. A premissa coloca a APXGP precisando vencer ao menos uma das corridas restantes da temporada para sobreviver. Essa estrutura, simples e eficiente, serve de espinha dorsal dramática para toda a história, dando urgência a cada volta na pista.
12. Kerry Condon e Javier Bardem completam o time de peso
O elenco principal tem nível de Oscar reunido na mesma garagem. Kerry Condon, indicada por Os Banshees de Inisherin, interpreta Kate McKenna, a diretora técnica da APXGP que engata um romance com Sonny. Javier Bardem, vencedor do Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez, vive Rubén Cervantes, dono da equipe e antigo companheiro de Sonny nos tempos de Lotus. Para completar, Condon ainda levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no IFTA por esse mesmo papel, reforçando a força do trio central.
13. Os carros são Fórmula 2 disfarçados de Fórmula 1
Os bólidos da APXGP não são carros de Fórmula 1 de verdade, por mais convincentes que pareçam. A produção partiu de chassis Dallara de Fórmula 2, alongados e alargados, e aplicou um pacote aerodinâmico criado pela Mercedes Applied Science para imitar um monoposto da categoria principal. Foram construídos seis chassis motorizados, alguns com motor Mecachrome V6, mais um elétrico exclusivo para os pit lanes. Havia ainda chassis por controle remoto para as cenas de batida, operados pela Carlin Motorsport com segurança total.
14. As câmeras encolheram 75% em relação a Top Gun: Maverick
A engenharia de câmera deu um salto desde os caças de Top Gun: Maverick. Para F1, o sistema a bordo foi reduzido a cerca de um quarto do tamanho usado no filme anterior, ou seja, 75% menor. Foram instalados até 15 pontos de fixação por carro, com até quatro câmeras filmando ao mesmo tempo. Os corpos e transmissores de rádio ficavam embutidos no assoalho do bólido, escondidos do público. Para fechar, a Panavision desenvolveu um controle remoto especial só para os movimentos de câmera dentro do cockpit.

15. Verstappen e Hamilton viram os chefões das corridas-clímax
O roteiro foi esperto ao usar rivais reais como obstáculos narrativos. Max Verstappen ganha um momento de destaque no meio do filme, no Grande Prêmio da Itália, em Monza, enquanto Lewis Hamilton funciona como o verdadeiro chefe final da corrida decisiva em Abu Dhabi. Charles Leclerc, da Ferrari, surge várias vezes conquistando pódios ao longo da trama. Já Lando Norris, da McLaren, aparece em closes glamourosos e ao menos um pódio em destaque, integrando a ficção ao calendário real da categoria.
16. Chefes de equipe reais fazem ponta como eles mesmos
Não foram só os pilotos que toparam a brincadeira. Os chefes de verdade da Fórmula 1 fazem participações interpretando a si próprios, incluindo Toto Wolff, da Mercedes, Christian Horner, da Red Bull, Zak Brown, da McLaren, Frédéric Vasseur, da Ferrari, e Guenther Steiner, da Haas. Os narradores da Sky Sports, Martin Brundle e David Croft, também emprestam suas vozes ao filme. Tudo isso reforça a sensação de que a APXGP fictícia disputa de fato um campeonato dentro do mundo real da categoria.
17. Hans Zimmer compôs a máquina com um humano dentro
A trilha sonora veio das mãos de Hans Zimmer, parceiro recorrente de Bruckheimer e Kosinski. Zimmer criou uma partitura híbrida que mistura orquestra e música eletrônica, partindo de um conceito poético curioso: a orquestra representa o humano que se senta dentro da máquina, enquanto os elementos eletrônicos seriam a própria máquina rugindo. Essa trilha, aliás, integra o disco F1 the Album, que reuniu artistas como Ed Sheeran, Doja Cat, Rosé e Tate McRae, ampliando o alcance do filme para fora das salas de cinema.
18. Tornou-se o filme mais lucrativo da história da Apple
F1 entrou para a história do streaming-cinema com folga. A produção arrecadou mais de US$ 634 milhões mundialmente, tornando-se a maior bilheteria da Apple Original Films até hoje. Também virou o maior sucesso da carreira de Brad Pitt nas bilheterias, superando os US$ 540 milhões de Guerra Mundial Z. A estreia mundial movimentou US$ 146,3 milhões, sendo US$ 57 milhões apenas nos Estados Unidos no primeiro fim de semana. Para um filme original, sem franquia por trás, o feito é notável.
19. Virou o filme de automobilismo mais visto de todos os tempos
Com mais de US$ 634 milhões, F1 se tornou o filme de corrida automobilística de maior bilheteria de todos os tempos, superando clássicos do gênero como Rush e Ford vs Ferrari. Foi também um dos longas mais lucrativos de 2025 e o filme original, não baseado em franquia, de maior arrecadação do ano. Nos cinemas IMAX, faturou US$ 85 milhões globalmente, posicionando-se como o filme de Hollywood mais visto nesse formato em 2025. A aposta na imersão, claramente, deu retorno em sala.
20. Mais de uma dúzia de câmeras IMAX e 2.500 efeitos visuais
Toda a captação foi pensada para o formato IMAX desde o começo. O filme usou mais de uma dúzia de câmeras digitais recém-projetadas e certificadas para o padrão, combinadas com a Sony Venice 2 e o sistema baseado em iPhone, mantendo um visual unificado entre todas as fontes. A pós-produção, por sua vez, contou com 2.500 planos de efeitos visuais feitos pela Framestore. No IMAX, F1 ganhou proporção de tela ampliada e mixagem de som exclusiva, justamente a tecnologia que renderia o Oscar de Melhor Som.
21. Venceu o Oscar de Melhor Som em 2026
F1 não ficou só na bilheteria e brilhou também na temporada de premiações. No Oscar de 2026, levou a estatueta de Melhor Som e ainda concorreu a Melhor Filme, Melhor Montagem e Melhores Efeitos Visuais. Nos Critics’ Choice Awards, venceu Melhor Montagem e Melhor Som; no BAFTA, também ganhou Melhor Som. Como bônus, recebeu nota A no CinemaScore, raridade que mede a aprovação do público na saída das sessões, e entrou na lista dos dez melhores do National Board of Review.

22. A distribuição foi dividida entre Apple e Warner
O filme nasceu de um arranjo curioso de distribuição entre dois gigantes. A Apple produziu e ficou com os direitos de streaming pela Apple Original Films, mas a Warner Bros. Pictures assumiu o lançamento nos cinemas e em mídia física. Por isso, F1 estreou na Apple TV apenas em 12 de dezembro de 2025, quase seis meses após a chegada às salas, em 27 de junho. Vale citar que a Apple havia adquirido o projeto lá atrás, ainda em junho de 2022, antes mesmo das filmagens.
23. É, sem rodeios, o Top Gun: Maverick das pistas
F1 foi vendido e recebido como o sucessor espiritual de Top Gun: Maverick, e a comparação não é exagero. A receita é praticamente idêntica: o mesmo diretor, produtor, fotógrafo e compositor reaplicaram a aposta em ação prática, velocidade real e câmeras dentro do veículo, agora trocando o cockpit do caça pelo do monoposto. Até a evolução das câmeras a bordo, encolhidas a um quarto do tamanho, partiu diretamente da experiência acumulada no filme dos aviões. Em resumo, é a mesma alma correndo numa pista diferente.
F1: O Filme em números
Para fechar o pano de boxes, vale colocar lado a lado os dados que explicam por que essa produção entrou para a história recente do cinema de ação. Os números mostram o tamanho da aposta da Apple e o retorno que ela trouxe, do salário de Brad Pitt à estatueta dourada conquistada na temporada de premiações.
- Bilheteria mundial: mais de US$ 634,1 milhões, recorde absoluto para um filme de automobilismo.
- Orçamento estimado: entre US$ 200 e US$ 300 milhões, um dos mais altos de 2025.
- Salário de Brad Pitt: cerca de US$ 30 milhões pelo papel de Sonny Hayes.
- Pilotos reais no filme: aproximadamente 21 estrelas da Fórmula 1 como elas mesmas.
- Temporadas filmadas: os Grandes Prêmios de 2023 e 2024, em circuitos verdadeiros.
- Prêmio máximo: Oscar de Melhor Som em 2026, com estreia nos cinemas dos EUA em 27/06/2025.
No fim das contas, F1: O Filme provou que ação prática e velocidade real ainda enchem salas, mesmo numa era dominada por efeitos digitais. Entre câmeras de iPhone, pilotos campeões no roteiro e uma equipe de mentira no grid de verdade, o longa virou um caso de estudo sobre como vender adrenalina. E se você achou que conhecia tudo da Fórmula 1, talvez seja hora de assistir de novo prestando atenção nos detalhes.